sexta-feira, 24 de março de 2017

24 DE MARÇO DE 1999 – OTAN ATACA A IUGOSLÁVIA SOB O PRETEXTO DE “LIBERTAR KOSOVO”... REVISIONISTAS DO TROTSKISMO APLAUDEM AGRESSÃO IMPERIALISTA

       
Em 24 de março de 1999 a OTAN iniciou o bombardeio a Iugoslávia usando como pretexto a defesa de Kosovo, exterminando milhares de vidas e pavimentando o fim do Estado Operário deformado a partir do ataque a república da Sérvia, então governada por Milosevic. Um míssil teleguiado da OTAN atingiu Belgrado, iniciando uma nova guerra nos Bálcãs. De acordo com a OTAN, a operação buscava deter os abusos de direitos humanos em Kosovo por parte dos Sérvios. Os bombardeios de 1999 levaram à retirada das forças iugoslavas do Kosovo e o estabelecimento da UNMIK, a missão da ONU em Kosovo, na verdade um protetorado ianque no coração da Iugoslávia. Os ataques aéreos duraram de 24 de março de 1999 a 10 de junho de 1999. Hoje já não existe o Estado operário Iugoslavo do qual a província de maioria albanesa fazia parte como Província Autônoma Socialista de Kosovo. A guerra fratricida, instigada pelo imperialismo logo após a contrarrevolução social ter se consumado na URSS e no Leste Europeu aniquilaram as conquistas da revolução iugoslava e acentuaram de sobremaneira a opressão nacional sobre o Kosovo. Vale lembrar que na guerra na ex-Iugoslávia, em meados dos anos 90, a LIT e seus satélites (PTS, WP, CWI) tomaram o campo da Bósnia, aliando-se à principal ponta de lança do imperialismo na região, em busca de restaurar o capitalismo sobre os escombros do antigo Estado operário. Para isso chegaram ao extremo de se negar a exigir o fim dos bombardeios da OTAN sobre os sérvios, o maior ataque aéreo desde a guerra do Golfo em 1991, que deixou milhares de mortos e foram mais além em sua posição pró-imperialista, reivindicando armas à ONU para reforçar as posições militares bósnias no ataque à Sérvia e aos sérvios-bósnios. Naquele momento a LIT se constituiu como um apêndice da ONU e da OTAN na Iugoslávia, quando ajudou a montar os “comboios operários” à Bósnia para fortalecer a luta contra o Estado operário sérvio. O artigo da LBI que publicamos abaixo elaborado em 2008 analisa esses acontecimentos históricos, desde a agressão da OTAN em 1999, a imposição do protetorado ianque em Kossovo, o processo de restauração capitalista que levou ao fim do Estado Operário deformado, abordando também o apoio dos revisionistas do trotskistmo ao imperialismo e seus aliados na Iugoslávia, política vergonhosa que esses renegados adotaram recentemente na Ucrânia e na Síria!

KOSOVO: “INDEPENDÊNCIA MADE IN USA” (Home Page da LBI, 13.03.2008)


Desde 1999, quando foi bombardeada pela OTAN, a Sérvia não exerce nenhuma ingerência política, econômica ou militar sobre o Kosovo. Parlamento, executivo, judiciário, estradas de ferro, correios, códigos penais, polícia, aduana, emissão de passaportes, carteira de identidade e de motorista, o espaço aéreo... tudo nestes quase 10 anos foi criado e controlado pela Missão de Administração Interina do Kosovo pelas Nações Unidas (UNMIK em inglês) e seu braço militar, a Kosovo Force (KFOR). Quem governou completamente a província desde o final do milênio passado foram os EUA e a União Européia. Há oito anos a LBI denunciava o que estava por trás da intervenção “libertadora” do imperialismo: “Kosovo se transformou em um protetorado ocupado por 40 mil soldados das tropas da OTAN e da ONU. O Comerkbank da Alemanha controla todo o sistema bancário comercial, ao mesmo tempo que é o Washington Group, uma multinacional ligada à indústria bélica americana que controla as minas Trepca no norte da província. Em Kosovo, os capacetes azuis da ONU realizaram eleições, boicotadas por grande parte da população para legitimar o governo do títere Ibrahim Rugova, da Liga Democrática do Kosovo (LDK) e encobrir a atual ocupação militar com uma carapuça democrática" (IUGOSLÁVIA: Governo Kostunica inicia recolonização 'democrática' patrocinada pela OTAN, Jornal Luta Operária Nº46 ? novembro-dezembro/2000).

A declaração de independência kosovar da sérvia nada tem a ver com independência nacional, mesmo quando comparado aos mais submissos padrões semicoloniais burgueses. O ato e os festejos dele decorrente foram acompanhados de uma pirotecnia já conhecida, agradecimentos aos "libertadores" imperialistas, crianças enfeitadas de bandeirolas dos EUA, UE e albanesas... Os marketeiros apelaram para clássicos recursos iconográficos e repetiram cenas já vista em episódios como na midiática "libertação de Bagdá" para legitimar a opinião pública fabricada pela Casa Branca.

PETRÓLEO, NARCOTRÁFICO E UMA "GUANTÁNAMO" ENCRAVADA NOS BÁLCÃS

A declaração de independência serve apenas para maquiar a troca da guarda entre os administradores do império. Na verdade, para transformar a ocupação militar criada em 1999 como "provisória" em permanente. A província continuará sendo ocupada pela OTAN sob as botas de 16 mil soldados. Aos quais se somarão uma força repressora de três mil homens entre policiais, juízes e fiscais. As decisões acerca do gasto público, os programas sociais, acordos monetários e comerciais continuam a cabo da OTAN.

Esta ocupação militar faz parte de interesses estratégicos dos EUA. Assegura una zona de influência estadunidense extremadamente militarizada na Europa meridional, das rotas de oleodutos que unem a Europa ocidental ao Mar Negro e protege o multibilionário tráfico de heroína canalizada do Afeganistão para a Europa via Kosovo e Albânia. Para desenvolver esses objetivos, em 1999, logo após fulminar Belgrado com bombardeios que forçaram a capitulação de Milosevic, os EUA montaram a maior base militar fora de seu território desde a II Guerra Mundial, Camp Bondsteel, construída pela corporação Halliburton, então presidida por Dick Chaney, futuro vice-presidente de Bush. Segundo um renomado professor da Universidade da Califórnia e ex-consultor da CIA "Foi a maior e mais cara base americana desde a Guerra do Vietnã, custando US$ 36,6 milhões e são necessários US$ 180 milhões, anualmente, para mantê-la funcionando. É tão grandiosa que os piadistas do Exército dos EUA dizem que somente dois objetos na Terra podem ser vistos do espaço: a Muralha da China e a base de Bondsteel (...) parece ser uma base ideal para defender os interesses do 'complexo militar-petrolífero' (...) A guerra no Afeganistão e a segunda guerra com o Iraque revelaram ser excelentes oportunidades para os EUA consolidarem sua estratégia petrolífera para os Bálcãs, da qual o primeiro estágio foi Camp Bondsteel" (The Sorrows of Empire: Militarism, Secrecy, and the End of the Republic, de Chalmers Johnson, 2004).

O Bondsteel, já descrito como um Campo de Guantánamo na Europa, além de torturar os adversários do império e outras funções militares desenvolvidas por sua irmã caribenha revela os apetites de controle das fontes energéticas do grande capital ianque. Casados ao megacampo militar estavam os planos para a construção do oleoduto Albano-Macedônio-Bulgaro-Oil (AMBO), outro empreendimento multibilionário assumido pela Halliburton. O oleoduto trans-balcânico com 900 km de comprimento e cerca de 750 mil barris/dia de capacidade. "Um projeto de US$ 1,3 bilhão que bombeará petróleo da bacia do Mar Cáspio transportado por navio-tanque de um oleoduto terminal, através do Mar Negro, para o porto petrolífero búlgaro de Burgas, de onde será levado através da Macedônia para o porto albanense de Vlore, no Adriático." (idem). O AMBO é uma das principais razões da intervenção militar dos EUA e da OTAN nos Bálcãs sob a fachada da "ajuda humanitária" as nacionalidades oprimidas.

UMA MÁFIA NARCOTRAFICANTE FINGE QUE É GOVERNO NO PROTETORADO PARA CAMUFLAR A EXPANSÃO MILITAR E ECONÔMICA DOS EUA

O imenso aparato militar imperialista está por trás do governo fantoche de Hashim Thaci, o atual primeiro-ministro. Na década de 90 Thaci havia fundado um cartel criminoso implicado com o tráfico de drogas e de seres humanos conhecido como "Grupo de Drenica", com base em Kosovo e relacionado com as máfias albanesas, macedônias e italianas. Recrutado pela CIA, ele se converte em um "combatente da liberdade" e dirigente do Exército de Libertação de Kosovo. O ELK transformou-se posteriormente em Partido Democrático do Kosovo. Após perder vários de seus dirigentes, assassinados pelo ELK, a LDK de Rugova, falecido em 2006, pactuou um governo de coalizão com o PDK em 2007. O apoio aberto dos EUA-OTAN ao ELK remonta aos meados da década de 1990, quando o ELK foi patrocinado pela administração Clinton, pela CIA e pelo serviço de inteligência alemão, o Bundes Nachrichten Dienst (BND). Hashim Thaci foi um protegido de Madeleine Albright, Secretária de Estado dos EUA (cargo que hoje é ocupado por Condoleezza Rice) para não ser preso por crimes de guerra.

O Washington Times, num artigo publicado em maio de 1999, descreve o ELK e suas ligações com a administração Clinton assim: "Alguns membros do Exército de Libertação de Kosovo, o qual financiou o seu esforço de guerra através da venda de heroína, foram treinados em campos terroristas dirigidos pelo fugitivo internacional Osama bin Laden ? o qual é procurado pelos bombardeamentos em 1998 de duas embaixadas estadunidenses na África que mataram 224 pessoas, inclusive 12 americanos. Os membros do ELK, adotados pela administração Clinton nos 41 dias da campanha de bombardeamento da OTAN para levar a Iugoslávia do Presidente Slobodan Milosevic à mesa de negociação, foram treinados em campos secretos no Afeganistão, Bosnia-Herzegovina e alhures, segundo relatórios de inteligência que acabam de ser obtidos. Os relatórios também mostram que o ELK alistou terroristas islâmicos ? membros do Mujahidin ? como soldados no seu conflito em curso contra a Sérvia, e que muitos já haviam sido contrabandeados para dentro do Kosovo para juntarem-se ao combate. Os relatórios de inteligência documentam o que é descrito como uma 'ligação' entre Bin Laden, o milionário saudita fugitivo, e o ELK ? incluindo uma área de plataforma comum em Tropoje, Albânia, um centro para terroristas islâmicos. Os relatórios dizem que a organização de Bin Laden, conhecida como al-Qaeda, tanto treinou como apoiou financeiramente o ELK" (Washington Times, 04/05/1999).

80% da heroína que chega a Europa oriunda do Oriente Médio e da Ásia Central é traficada pelo governo do Kosovo. Boa parte da droga vem da outra colônia da OTAN, o Afeganistão. Segundo a própria ONU, em 2006 o Afeganistão forneceu cerca de 92% do abastecimento mundial de ópio, que é utilizado para fabricar heroína. O cultivo da droga cresceu 3.200% desde a invasão do país pelos EUA e o negócio da heroína chega a faturar mais de R$120 bilhões/ano. À medida que a elite kosovar desfruta de uma renda crescente como sócia minoritária do narcotráfico ianque, a província balcânicas converteu-se em uma das mais barbarizadas após a restauração capitalista na ex-Iugoslávia. 50% da população está desempregada e vive miseravelmente. Esta é o resultado da independência made in USA do Kosovo.

Há quase um século o imperialismo ianque realizou uma manobra parecida com o caso kosovar. Em 1903, os EUA promoveram a secessão do Panamá da Colômbia. Preparando-se para assumir um papel ativo na partilha imperialista do planeta, em 1904 o presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, defendeu a aplicação da Doutrina Monroe enunciada quase um século antes, 02/12/1923, sob princípios defensivos frente ao colonialismo europeu. Com objetivos claramente expansionistas ianques, T. Roosvelt fez a Doutrina Monroe tornar-se conhecida pela máxima "A América para os americanos". Em 1903, os EUA projetaram a construção do Canal do Panamá por óbvias razões estratégicas, militares e comerciais. O Panamá era a província mais ao norte da Colômbia. Mas a Colômbia não apoiou o plano dos EUA para criar um canal em seu território, região que os EUA iriam ocupar e governar indefinidamente. A forma como o governo americano contornou este problema foi enviar fuzileiros americanos para a Colômbia para realizar a "independência" da província do Panamá. O governo ianque teatralizou a "independência" do novo protetorado, assim como agora faz com Kosovo, e imediatamente reconheceu a "libertação nacional" do novo país, que passaria a ser o Panamá sob um regime títere. O Canal do Panamá foi essencial para o aparecimento dos EUA como potência imperialista global. Permitiu à marinha americana passar do Atlântico para o Pacífico sem ter que dar a volta à América do Sul. Foi vital numa perspectiva militar e estratégica, e também comercial. Mesmo assim, se comparado ao precedente panamenho, sob a degenerescência da era imperialista do século XXI, a farsa kosovar é maior.

CRISE KOSOVAR FAZ CAIR GOVERNO BURGUÊS RESTAURACIONISTA DA SÉRVIA

Não é a toa que as manifestações sérvias contra a independência do kosovo desembocaram em atos políticos contra os EUA, a UE e imediatamente em defesa da autodeterminação das minorias sérvias tanto em kosovo quanto na Bósnia. O governo restauracionista de Kostunica fingiu descontentamento contra os EUA e ameaçou até retirar sua embaixada do país. Mas tudo não passou de demagogia a la Chávez. Incapaz de conter as manifestações populares fingiu estimulá-las, mas quando elas saíram do controle e partiram para a destruição violenta das representações diplomáticas e instituições imperialistas em diversas cidades, os partidos burgueses sérvios trataram de por panos quentes na crise.

Para tranquilizar os investidores internacionais preocupados com as manifestações radicalizadas, o governo anunciou a venda de 2.814 empresas estatais. "'Os investimentos estrangeiros são o futuro da Sérvia', deixou claro o vice-primeiro-ministro da república balcânica, Bozidar Delic, quem esta semana assegurou ante um grupo de inquietos investidores que o Governo de coalizão seguirá adiante com seu plano de liberalização econômica e com sua intenção de privatizar as empresas que permanecem sob o controle estatal. Trata-se da maior onda de privatizações no Leste Europeu" (El Pais, 09/03/2008). Pela primeira vez desde o fim da guerra do Kosovo, as tropas da OTAN foram acionadas para reprimir os manifestantes que queimaram postos fronteiriços em Leposavic e Zubin Potok, no sul da Sérvia.

Temendo que suas minorias oprimidas reanimem suas aspirações de independência, vários países se negaram a reconhecer a declaração de independência kosovar. Dentre os quais, a Espanha, opressora de várias nacionalidades cuja expressão mais ativa é o País Basco, e a Rússia. O sucessor de Putin, Dmitry Medvedev, afirmou que independência da ex-província é 'discrepante' com legislação internacional. Contra esta alteração na correlação de forças militares em favor do bloco capitaneado pelos EUA, Moscou ameaçou usar a força: "'Se hoje a UE adotar uma posição unida ou a Otan ultrapassar seu mandato em Kosovo, estas organizações desafiarão a ONU e nós também partiremos do fato de que devemos utilizar uma força brutal, que chamamos de força armada, para que sejamos respeitados', afirmou Dmitri Rogozin, o representante da Rússia na Otan" (AFP, 22/02/2008).

Ainda que, por enquanto, "ir para às vias de fato" não passem de ameaças verbais, a Rússia ensaiou uma retaliação de baixo impacto cortando por um dia (04/03) metade do subministro de gás que envia para a Europa via Ucrânia. No dia seguinte, a OTAN anunciou sua ampliação em direção ao leste com o ingresso da Albânia e da Croácia. As candidaturas da Geórgia e da Ucrânia ao mesmo ingresso ouriçou novamente o Kremlin. "A possibilidade de ter a OTAN em suas fronteiras chegou a provocar a ameaça russa de apontar seus mísseis a Europa" (El país, 06/03). Todavia, no momento, ironicamente, Moscou tratou de tirar proveito da situação insuflando as províncias rebeldes (Abecásia, Osetia do Sul) da ex-república soviética e hoje adversária pró-ocidente Geórgia a reclamar o "caráter universal" do direito a autodeterminação étnica, utilizando o precedente do Kosovo. Obviamente, a Chechênia está fora do "universo" com direito a autodeterminação para o Kremlin.

"QUANDO ESTALAR A GRANDE GUERRA SERÁ POR ALGUMA MALDITA COISA NOS BÁLCÃS"

Novamente os Bálcãs desatam uma crise de proporções internacionais, envolvendo vários atores e de conseqüências inimagináveis como todos os conflitos na região, o que faz recordar a frase de Bismark ainda no século XIX: "Quando estalar a Grande Guerra será por alguma maldita coisa nos Bálcãs". A causa da região há séculos provocar tantas disputas está em sua localização estratégica entre a Europa, a Ásia e o Mediterrâneo. O que vemos nestes dias não passa de uma curta calmaria prévia das futuras conflagrações interimperialistas, parteira de novas revoluções.

Por enquanto, para tentar esfriar a tensão balcânica a nível imediato e consolar as massas sérvias, o Tribunal Penal Internacional de Haya, órgão da "justiça" imperialista, tratou de agilizar o julgamento do general croata Ante Gotovina, acusado de crimes de guerra e limpeza étnica contra 200 mil sérvios croatas, expulsando-os da região de Krajina em 1995.

Um mês depois da declaração unilateral de independência do Kosovo, o governo sérvio dissolveu-se. O primeiro-ministro nacionalista pró-Russia, Vojislav Kostunica, do Partido Democrático da Sérvia (DSS) entrou em choque com o presidente do país, o pró-europeu e pró-EUA, Boris Tadic, líder do Partido Democrático (DS). A frágil coalizão governamental se desfez. Além de demonstrar sua profunda impotência frente à manobra artificial imperialista, a burguesia nativa foi incapaz de manter a própria estabilidade política interna. Para as massas sérvias que protagonizaram violentos protestos fica o sentimento de que foram apunhaladas. Tanto porque logo o governo que instigou os protestos tratou de conter sua radicalidade, quanto porque os dois principais partidos burgueses se revelaram imensamente corrompidos pelas distintas frações do grande capital externo, o que desmascara todos os discursos de defesa da unidade nacional que faziam. A questão kosovar desata outra questão maior para a Sérvia. O ingresso ou não do país na UE.

A partir da dissolução do governo foram convocadas novas eleições parlamentares para 11 de maio, pois após as recentes manifestações antiimperialistas, as distintas frações burguesas se viram necessitadas do lastro das urnas para aprofundar o curso de dependência do país ao capital russo ou europeu ocidental. A missão européia que vai assumir a administração de Kosovo a partir de junho já ameaça deslocar mais policiais, juízes e fiscais para Mitrovica, a zona do norte kosovar povoada por sérvios.

Os revolucionários internacionalistas não podem furtar-se de desmascarar a promoção da guerra fratricida pelas camarilhas restauracionistas do capitalismo nos Bálcãs: "Quando, em 1998, Milosevic desatou uma nova ofensiva contra os albano-kosovares, a LBI chamou a unidade revolucionária do povo albanês de Kosovo, Albânia e Macedônia contra a opressão sérvia e denunciou o caráter pró-imperialista das direções kosovares (Rugova e ELK). A LBI rechaçou também as sanções internacionais sobre a sérvia e defendeu a expulsão da OTAN dos Bálcãs" (IUGOSLÁVIA: Governo Kostunica inicia recolonização 'democrática' patrocinada pela OTAN, JLO Nº 46 ? novembro-dezembro/2000).

Em junho de 1999 defendemos a derrubada revolucionária de Milosevic e a construção de um governo operário e camponês para continuar a luta pela expulsão da OTAN dos Bálcãs, com toda a autoridade de uma corrente que havia defendido a vitória militar da Iugoslávia e o estabelecimento de uma frente militar com Milosevic contra os ataques imperialistas, sem depositar nenhuma confiança em seu governo e prevenindo as massas sérvias que este preparava, desde o início, uma vergonhosa capitulação (Carta da LBI ao POR argentino: Pela derrubada revolucionária de Milosevic para continuar a luta pela expulsão da OTAN dos Bálcãs!, JLO Nº35, junho/1999). Sem cair no canto de sereia da "justiça" imperialista, denunciamos a farsa dos julgamentos do Tribunal Penal Internacional quando Milosevic foi morto na prisão (MILOSEVIC ASSASSINADO SOB A CUSTÓDIA DA ONU NO CÁRCERE DO TPI: Quando os criminosos de guerra se transformam em juízes, JLO Nº122 - 2ª Quinzena de Março/2006).

A CHAVE DA LIBERTAÇÃO NACIONAL DOS BALCÃS ESTÁ NA REVOLUÇÃO PROLETÁRIA BASEADA EM CONSELHOS OPERÁRIOS MULTIÉTNICOS

Contra a farsa imperialista, os revolucionários internacionalistas devem defender uma genuína independência para Kosovo, pois logo a frustração se abaterá sobre os kosovares que lutarão por sua verdadeira libertação nacional. O que toda a esquerda deixou passar, limitando-se a uma posição meramente antiimperialista é o que Lênin ressalta na polêmica com Rosa Luxemburgo: "Na questão da autodeterminação das nações, como em qualquer outra questão, interessa-nos em primeiro lugar e acima de tudo a autodeterminação do proletariado dentro das nações" (Sobre o Direito das Nações à Autodeterminação, V.I. Lênin, fevereiro-maio/1914).

É somente não assumindo a defesa dos interesses de sua burguesia que os trabalhadores da Sérvia podem dissipar a desconfiança dos kosovares e ganhá-los para uma luta comum contra os EUA, a ONU, a OTAN e os governos burgueses mafiosos. Somente assim será possível convencer as massas kosovares de que é preciso derrotar este jugo imperialista e sobre ele construir uma federação de repúblicas livres e soviéticas, como aspiravam às massas das distintas etnias dos Bálcãs após derrotarem a ocupação nazista. Foi a política degenerada da burocracia titoísta que arruinou o Estado operário e favoreceu a guerra fratricida patrocinada pelo imperialismo na década de 90 do século passado.

Quanto mais falsa é a "independência" vendida pelo imperialismo, quanto mais opressora for a consolidação da dependência colonialista do país em relação a UE, mais cedo os kosovares perceberão o quanto estão sendo enganados e se rebelarão contra seus "libertadores" e seus fantoches narcotraficantes. Ao mesmo tempo em que devem lutar pela expulsão do conjunto das tropas de ocupação imperialistas ao lado de seus irmãos kosovares, os trabalhadores sérvios devem aproveitar a crise interburguesa para realizar grandes manifestações combatendo a privatização e lutando por colocar as empresas estatais sob o controle dos trabalhadores, expropriar os capitalistas nativos, russos e ocidentais, apresentar uma saída de classe, revolucionária para a crise, por um novo Estado operário baseado na unidade multinacional soviética, livre dos desvios stalinistas do passado, opondo à união imperialista européia a Federação das Repúblicas Socialistas da Europa.

A LIT, que em meio à guerra fratricida que esfacelou o Estado operário Iugoslavo compôs o pró-imperialista "comboio operário a Bósnia", silenciou completamente diante deste novo capítulo da questão kosovar. Também pudera! No início da década de 90 a posição pró-imperialista da corrente foi um dos principais estopins de uma grande ruptura da LIT. Embora o partido que encabeçou a ruptura naquela época, o PST colombiano esteja formalizando, exatamente neste 2008, seu retorno e sua capitulação completa no próximo congresso da LIT, a direção oportunista da corrente achou melhor não correr o risco de reabrir antigas feridas.

De fato, o PSTU já falou bobagens demais sobre a Iugoslávia. Como recordar é viver, reproduzimos um pequeno trecho de nossas polêmicas feitas na época com o PSTU sobre o tema: "O PSTU afirma que a Iugoslávia vive uma 'Revolução popular e democrática'(Opinião Socialista, nº104, 25/10/2000) fazendo coro com a mídia burguesa. Vale lembrar que os morenistas também já chegaram ao absurdo de chamar de 'revolução democrática' a transição pactuada das ditaduras militares na Argentina e no Brasil para os governos de Alfonsín e da Nova República respectivamente. (...) No artigo 'Quem é Vojislav Kostunica?'(OS, nº104), onde supostamente o PSTU trata de analisar as perspectivas do novo governo, tenta obscurecer o caráter colaboracionista de Kostunica, começando com um 'sobre ele sabe-se pouco' (idem), pintando-o como um nacionalista independente. Mais adiante, com um ar duvidoso: 'Ao que parece, Kostunica já conta com o apoio do imperialismo' (idem), tenta minimizar o apoio explícito e milionário do imperialismo a Kostunica. Como se pode perceber no diário americano citado a seguir, para todos, menos para o PSTU, 'restam poucas dúvidas de que o dinheiro dos EUA ajudou a heterogênea oposição iugoslava a organizar uma campanha eficaz de apoio a Kostunica. Ao contrário de golpes anteriores articulados pela CIA para derrotar governos considerados inconvenientes pelos EUA, como Guatemala, Irã e Chile, o financiamento da oposição iugoslava parece feito às claras. Washington gastou US$10,7 milhões no apoio à democracia na Iugoslávia no ano fiscal encerrado em setembro de 1999, e US$25 milhões no que foi encerrado recentemente' (Los Angeles Times, 06/10/2000). Isto só para mencionar o que é 'feito às claras', não incluídas as verbas da CIA, nem das fundações capitalistas como a do megaespeculador Geoge Soros (que patrocinou o ELK em 1999). Mas, para o PSTU, que alimenta ilusões num governo de Kostunica, nada disto está tão claro. Tanto durante a contra-revolução na URSS, em 1991, quanto agora na Iugoslávia, o PSTU apoiou os movimentos reacionários apresentando-os como revoluções democráticas. Para dar conseqüência a estas posições escandalosamente oportunistas seria necessário rasgar as teses da revolução permanente e admitir que não é mais a vanguarda consciente do proletariado, mas os agentes do imperialismo (Yeltsin, Kostunica e Cia.) os 'novos' sujeitos da revolução democrática. A idéia absurda de que setores da burguesia e, mais ainda, agentes diretamente patrocinados pelo imperialismo seriam capazes de dirigir uma revolução democrática é uma ruptura completa com o ABC do trotskismo em favor da recolonização imperialista." (IUGOSLÁVIA: PSTU/LIT saúda 'revolução' encomendada pelo imperialismo JLO Nº 46 ? novembro-dezembro/2000).

Ao delimitar-se com o stalinismo titoísta e suas traições à causa do socialismo, os revolucionários não podem compartilhar dos preconceitos anticomunistas como, por exemplo, dos que dizem que tanto sob a dominação capitalista quanto sob o Estado operário burocratizado, nascido sobre a base da expulsão do nazismo e expropriação do capital, a opressão nacional dos povos bálcãs foi sempre similar. Desprezam as conquistas do Estado operário burocratizado e não a defendem como patrimônio histórico do proletariado mundial na luta de classes.

Hoje já não existe Estado operário iugoslavo do qual a província de maioria albanesa fazia parte como Província Autônoma Socialista de Kosovo. Foram num primeiro momento os desvios do stalinismo titoísta que conduziram o país ao processo de restauração capitalista. Em seguida, a guerra fratricida, instigada pelo imperialismo logo após a contra-revolução social ter se consumado na URSS e no Leste Europeu que aniquilaram as conquistas da revolução iugoslava e acentuaram de sobremaneira a opressão nacional sobre o Kosovo. Mas não se pode apagar da história que apesar dos crimes daquela direção stalinista, a Iugoslávia era um Estado operário que possuía conquistas históricas para os trabalhadores e os kosovares nem sempre sofreram a mesma opressão nacional baseada na mesma violenta repressão desde 1913!

Aqueles que são incapazes de defender a herança das conquistas revolucionárias do passado jamais saberão encontrar o caminho para as novas conquistas. Em outras palavras, os que não sabem defender o Estado operário burocratizado frente à propaganda ideológica anticomunista do imperialismo, repetirão as falsidades do inimigo, patinarão no pântano da confusão política sem saber orientar a luta para a construção de um Estado operário são. Os mesmos preconceitos bastante disseminados na esquerda que se proclama trotskista são utilizados agora pelas camarilhas restauracionistas para envenenar a população das distintas repúblicas a recusar a alternativa da revolução social multiétnica. O veneno chauvinista é a outra face da idéia de que seria utópica a unidade revolucionária dos povos de etnia albanesa, sérvia, croata, bósnia... contra seus opressores capitalistas nativos e estrangeiros. De que é impossível a instauração de governos operários e camponeses, onde as diversas etnias de trabalhadores sejam democraticamente representadas nos sovietes e o estabelecimento de uma federação socialista de repúblicas como na União Soviética de Lênin e Trotsky. Por isto, a URSS foi a mais ampla congregação de etnias em uma só nação, mais de 150! Eis a chave para a verdadeira e única libertação nacional do Kosovo e de todos os povos oprimidos do planeta.

"O Estado operário multinacional Iugoslavo formou-se pela unidade dos operários das diversas Repúblicas dos Bálcãs a partir de uma necessidade histórica do proletariado destas regiões para expulsar as o exército nazistas, derrotar as tropas 'utashas', a guarda croatas colaboradora de Hitler, e em seguida impedir a volta do sanguinário rei Pedro ao poder, derrotando as tropas monarquistas sérvias dos 'tchetniks'. Para realizar a tarefa colossal de expropriar os capitalistas de distintos matizes o proletariado sobrepôs suas divisões étnicas, as três línguas e inúmeros dialetos e as três religiões principais que os separavam. Mas a ausência do partido trotskista deu origem a um Estado operário multinacional deformado, dirigido pela burocracia que usurpou o poder dos conselhos populares em cada uma das repúblicas dos Bálcãs. Adotaram a teoria do socialismo em um só país de Stálin, com algumas alterações no plano geral do Estado para acomodar os interesses dos dirigentes stalinistas das distintas repúblicas, como, por exemplo, o revezamento do presidente da Federação a cada 12 meses entre os burocratas, dando origem ao que Tito denominou de Socialismo Autogestionário.Este modelo de Socialismo foi aplaudido tanto pelo imperialismo que poderia fazer negócios em separado com cada uma das repúblicas (a Iugoslávia foi o primeiro Estado operário a ingressar no FMI), quanto por correntes que se reivindicavam trotskistas, como os mandelistas, que viam aí um novo modelo de Socialismo, mais democrático. O que vemos acontecer na ex-Iugoslávia são as conseqüências desta política. Se a revolução fez diminuir o atraso econômico das regiões mais empobrecidas, a aplicação dos planos dos credores internacionais aprofundou as desigualdades entre as repúblicas. A crise econômica fez evoluir a discriminação salarial não só entre a burocracia e o proletariado, mas a partir da troca e, conseqüentemente, do desenvolvimento desigual entre as repúblicas, cresceu a discriminação salarial e de direitos trabalhistas entre as distintas etnias. Esta condição, criada a partir dos interesses da casta burocrática, aliada à pressão do capital financeiro é a raiz da guerra fratricida atual. A princípio, os burocratas das distintas nacionalidades se dividiram em função da repartição das riquezas do Estado operário, lutando entre si para ver quem logrará a maior fatia do bolo. Para despedaçarem a Iugoslávia, os burocratas restauracionaistas promovem o massacre entre o proletariado, sob a bandeira do nacionalismo e da 'pureza étnica', jogando os trabalhadores de uma etnia contra a outra. Em nome da 'limpeza étnica', querem desviar a luta de classes e operar a transformação de cada pedaço da ex-Iugoslávia numa semicolônia do imperialismo. A política centrista é incapaz de defender o internacionalismo proletário, as conquistas operárias e a revolução política frente à burocracia restauracionista. Diante de guerra fratricida nas repúblicas dos Bálcãs, uma grande leva das correntes que se reivindicam trotskistas aliam-se por uma ou outra fração chauvinista. A LIT, em meio à guerra civil na ex-Iugoslávia, toma partido do campo da Bósnia. A política pequeno-burguesa dos morenistas leva ao caminho do despedaçamento contra-revolucionário da Iugoslávia através da carnificina chauvinista, reivindicando a entrada em cena das tropas imperialistas da OTAN em socorro a 'pobre Bósnia'. O movimento operário deve repudiar a política de exigir armas do imperialismo para ajudar na guerra genocida do operariado dos Bálcãs. Fora as tropas da ONU e da OTAN dos Bálcãs! Abaixo a política nacionalista e contra-revolucionária de lançar operários como 'bucha de canhão' contra seus irmãos operários!" (JLO nº 0, Maio-Junho/1995, Resoluções da Conferência de Fundação da LBI).

A “maldita” necessidade histórica se impõe novamente para os trabalhadores dos Bálcãs na grande guerra de classes mundial. Mas somente um partido da IV Internacional que não se deixar levar pela ofensiva ideológica anticomunista pós-URSS, que supere com os métodos do marxismo os desvios stalinistas e saiba aprender com as derrotas históricas da classe, poderá conduzir o proletariado a novos triunfos revolucionários.