quinta-feira, 16 de abril de 2020

LUTA DE CLASSES NA SAÚDE: POBRES E NEGROS SÃO AS MAIORES VÍTIMAS DO COVID-19, DISTRIBUIÇÃO DE UTI´S ESCANCARAM DESIGUALDADE SOCIAL... EXPRESSÕES DO VÍRUS MORTAL DO CAPITALISMO MORIBUNDO

  
A pandemia do Coronavírus deixa ainda mais evidente o quadro de desigualdade entre as classes sociais não somente no serviço de saúde brasileiro como em todos os terrenos da vida ditados pelo modo de produção capitalista. Cinicamente, a mídia burguesa chegou a propagar que a ação do Covid-19 seria “democrática”, pois o vírus em tese não discrimina ninguém. Nada mais falso! Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em fevereiro de 2020, somente 24,2% da população brasileira estava coberta por planos de saúde, a grande maioria de péssima qualidade, como vimos no caso da morte de centenas de idosos na rede de hospitais Sancta Magiorre do plano Prevent Senior (até 6 de abril 114 pessoas em São Paulo). Esse número encontra-se em queda com a crise econômica e cairá ainda mais com o avanço do desemprego. Por sua vez, a quantidade de leitos de UTI no Brasil é também completamente desigual entre a rede pública e privada. O país tem 2,3 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI´s) em média para cada 10 mil habitantes. No SUS o número cai para 1,4.  Na rede privada, a média pula para 4,9 por 10 mil, ou seja, quem paga tem mais acesso e, por consequência, mais chances de sobreviver à peste viral.  Registra-se que a qualidade entre essas UTI´s é também abissal, dado o sucateamento do SUS. Vale ressaltar um aspecto especial desse abismo de classe e cor: a desigualdade racial. Embora não sejam os mais infectados pela nova doença, os negros estão morrendo mais que os brancos pela doença. Os dados, até agora, mostram que pretos e pardos (negros) são 1 em cada 4 hospitalizados por Covid-19, mas 1 em cada 3 mortos. Negros possuem maior índice de comorbidades associadas, sim, porém por razões socioeconômicas estão também mais vulneráveis ao coronavírus. São minoria nos empregos de classe média, onde a pequena burguesia pode fazer o chamado “homeoffice”, mas são maioria entre os pobres e informais que precisam ir para a rua ou entre os que competem por vagas no moribundo SUS. Vulnerabilidades sanitárias e socioeconômicas atingem os explorados, colocando em ainda maior risco de vida. Esses dados expõe o “vírus mortal” que é o capitalismo! Somente a luta direta dos trabalhadores pode impor que se destine recursos estatais somente para a rede pública de saúde, estatizando os “shoppings” hospitais e fechando imediatamente as empresas de “planos e seguros” de saúde privada. Apenas com o fim da saúde privada, dos planos de saúde pagos e com a completa estatização de todo o setor (clínicas, laboratórios, hospitais e indústria farmacêutica) sob o controle dos organismos de poder dos trabalhadores, associada a uma nova concepção de medicina preventiva e humanizada pode atender as demandas da população explorada, contribuindo por uma vida com bem-estar físico e mental, condições impossíveis de serem alcançados pelo capitalismo doente e senil que arrasta a humanidade para a barbárie!

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, há maior presença branca na administração pública e informação/financeiras, grupos de atividades com melhores condições de trabalho. Os negros se fazem mais presentes, segundo estes dados de 2018, na agropecuária, na construção, no comércio, no transporte, alojamento/alimentação e nos serviços domésticos, setores que devem ser mais impactados. Sobre essa última categoria, para o ano de 2015, as mulheres negras eram 59,7% dos trabalhadores domésticos no Brasil, uma das profissões mais vulneráveis à coronacrise em termos sanitários. É importante destacar também que negros são maioria nos postos de trabalho sem contribuição à previdência social, mais uma fragilidade nesse contexto de crise. Levantamento do Sebrae mostra que em 2014 havia mais empresas cujos donos eram negros que brancos. Porém, os negros são maioria entre os conta-própria (54%) e os brancos maioria entre os empregadores (67%). Entre os Microempreendedores Individuais (MEIs), 46% se declararam brancos, 42% pardos, 9% pretos (ou seja, 51% negros), 2% amarelos e 1% indígena em 2015.

Quanto aos beneficiários do Programa Bolsa Família (PBF), dos 12.677.749 beneficiários em maio de 2016, 9.438.131 eram negros. Aliás, o PBF tem sua cobertura em queda durante o ano de 2019, com ampliação da fila para o programa. O recente anúncio do governo de expansão do programa, cuja demanda deve aumentar nesse período de crise, sequer dará conta de zerar a atual fila.  Sobre as favelas, estas podem ser locais de rápida disseminação do Covid-19, pois as condições de moradia e saneamento são precárias, somados ao fato de que muitos dos que ali vivem têm inserções precárias no mercado de trabalho e ficam mais vulneráveis em momentos de crise. 72% dos moradores de favelas se declaram negros .  Quanto à população de rua (exposta, com fragilidades de saúde e sem poder fazer “quarentena”), há poucos dados em escala nacional. Uma publicação do Ministério da Saúde de 2014 aponta que 72,8% das crianças e adolescentes em situação de rua são negros. Já pesquisa de 2008 do extinto Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome mostra que 67% das pessoas em situação de rua são negras.

Por fim, no sistema carcerário, que já está sendo duramente atingido pelo vírus, como temos notícias no Complexo da Papuda, por exemplo, 61,7% dos presos são pretos ou pardos. As políticas sociais que poderiam dar apoio a esta população estão gravemente subfinanciadas, em especial a partir da aprovação da Emenda Constitucional 95/2016. Assim, o Brasil chega à coronacrise com menos instrumentos para rebater seus efeitos, com o SUS subfinanciado e com a população mais vulnerável. A pandemia escancara as desigualdades, os contrastes. Ainda mais no país que teve 388 anos de escravidão e outros tantos de exclusão. A pandemia não é “democrática” no Brasil e no mundo capitalista, ao contrário, ele mata bem mais os pobres, negros, enfim, a classe trabalhadora!