DECLARAÇÃO DA FRENTE DE RESISTÊNCIA DO IRÃ (JEBHE-YE PAYDARI) SOBRE AS NEGOCIAÇÕES DO ACORDO COM OS EUA: “ESSE ‘MEMORANDO DE ENTENDIMENTO’ SERVE AOS INTERESSES NACIONAIS?”
Diversos grupos políticos iranianos não estão satisfeitos com a proposta apresentada nos 14 pontos do chamado “Memorando de Entendimento” com os EUA. Seus dirigentes representam os setores mais radicalizados do nacionalismo burguês do país. Grande parte das críticas vem de uma fração nacionalista conhecida como Jebhe-ye Paydari (Frente de Resistência), cujos membros se consideram guardiões da Revolução Islâmica de 1979. O grupo tem usado seu espaço político no parlamento e na mídia estatal para lançar fortes críticas aos pontos divulgados e slogans contra os negociadores foram entoados em manifestações convocadas nesta semana em Teerã.
Essa ala mais radicalizada do regime nacionalista burguês iraniano tem alertado que os negociadores, liderados pelo ministro das Relações Exteriores, Mohamed Javad Zarif, fazem muitas concessões ao imperialismo ianque. Uma dessas vozes é o ex-negociador nuclear e candidato que ficou em segundo lugar nas eleições à presidência em junho de 2024, Saeed Jalili, com 13 milhões de votos. Ele também foi chefe de segurança nacional. Seu irmão, Vahid Jalili, é um alto funcionário da emissora estatal, IRIB.
O líder espiritual do grupo, o aiatolá Mohammad-Taqi Mesbah-Yazdi, que faleceu em 2021, foi um dos clérigos mais radicais do país. Ele atuou como membro da Assembleia de Sábios, órgão responsável pela escolha do líder supremo, e dirigiu uma das instituições de ensino mais tradicionais do Irã, cujos graduados ascenderam a cargos de liderança em influentes instituições burguesas governamentais.
Outro dirigente do grupo, o parlamentar Mahmoud Nabavian, afirmou que, se o Irã assinar o acordo, “nos tornaremos efetivamente uma colônia dos Estados Unidos”. Ele acrescentou que o acordo implicaria a abertura do estratégico Estreito de Ormuz “inclusive para Israel”: “Se quisermos realizar o mínimo enriquecimento de urânio, primeiro teríamos que obter permissão dos Estados Unidos, mesmo para fins como a produção de medicamentos ou eletricidade”, acrescentou Nabavian, que anteriormente fazia parte da equipe de negociação.
O deputado nacionalista questionou os termos atribuídos ao potencial acordo e levantou dúvidas sobre a sua adequação aos interesses nacionais da República Islâmica. Em uma mensagem publicada nas redes sociais, o parlamentar indicou que o texto divulgado na mídia incluiria a abertura imediata e irrestrita do Estreito de Ormuz, sem custos associados, bem como uma redução no enriquecimento de urânio iraniano. Nabavian acredita que ainda existem dúvidas sobre aspectos fundamentais, incluindo o eventual levantamento das sanções econômicas, a liberação de ativos iranianos congelados no exterior e o acesso a um fundo de financiamento estimado em US$ 300 bilhões. "Este ‘Memorando de Entendimento’ serve aos interesses nacionais?" declarou lendo um documento oficial do grupo Jebhe-ye Paydari (Frente de Resistência).
Segundo a imprensa iraniana, sete parlamentares ligados ao grupo se recusaram a assinar uma declaração de apoio à equipe de negociação. Mahmoud Nabavian, integrou a equipe de negociação do Irã em Islamabad, mas declarou publicamente que negociar sobre o programa nuclear do país foi um “erro estratégico”. Posteriormente, ele pediu a destituição do Ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, da equipe. “Considerando o histórico de má-fé dos Estados Unidos e a presença de apoiadores do humilhante JCPOA (acordo nuclear de 2015) ao lado do Sr. Ghalibaf nas negociações, não há esperança de negociações e de um acordo favorável para o Irã”, escreveu Nabavian no X. “Quanto mais sinais de fraqueza enviarmos, mais próxima a guerra estará”, disse Nabavian em uma entrevista na televisão, na qual leu a proposta do “Memorando de Entendimento”.
A participação de membros do grupo Paydari em consultas com negociadores em abril, sugeriu que o Regime dos Aiatolás estava buscando uma “coesão interna”. No entanto, a Frente da Resistência mobilizou seus membros para intensificar as críticas ao acordo, aumentando a pressão sobre os negociadores iranianos.
Por sua vez, o porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento, Ebrahim Rezaei, afirmou que a equipe de negociação iraniana fez concessões significativas durante o processo de diálogo com Washington. De acordo com Rezaei, a atitude demonstrada na mesa de negociações pode ter alterado os cálculos de seus adversários e gerado a percepção de que o Irã se encontra em uma posição de fragilidade. Ele acrescentou que também não estava claro quando o Irã se beneficiaria com a liberação de seus ativos congelados no exterior ou com o alívio das sanções.
A Frente da Resistência chegou a mobilizar protestos contra
qualquer acordo e organizaram uma grande manifestação em frente ao Ministério
das Relações Exteriores, dirigida contra o principal diplomata do Irã, Abbas
Araghchi, em aberta afronta aos apelos à unidade.
Participantes de uma manifestação realizada no sábado em
Teerã exigiram a renúncia do ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, e do principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf,
segundo vídeos que circulam nas redes sociais.
A crescente reação negativa na mídia e nas ruas levou contas
de redes sociais ligadas ao Líder Supremo Mojtaba Khamenei a republicarem uma
mensagem dele de março, na qual ele pedia à mídia que "se abstivesse
seriamente de se concentrar em fraquezas".
O jornal Javan, considerado próximo à Guarda Revolucionária
do Irã, afirmou que alguns oradores em manifestações públicas estavam ignorando
as instruções de Khamenei e "agindo para semear divisão e discórdia entre
a população".
Os
manifestantes relembraram o assassinato, no início do conflito em fevereiro, do
pai de Khamenei — o líder supremo anterior — com o slogan: “Ghalibaf, Araghchi!
E o sangue do meu líder?”
Ali Rabiei, um funcionário próximo ao presidente Masoud
Pezeshkian, alertou contra a criação de "narrativas
artificiais". A mídia iraniana também alertou para o risco de divergências
se transformarem em divisões. "Os insultos ofensivos que, infelizmente,
foram dirigidos ontem à noite contra alguns funcionários, embora proferidos por
um grupo específico e muito pequeno e amplificados por meios de comunicação
hostis e anti-iranianos, são completamente inaceitáveis, mesmo nessa escala
limitada", afirmou no domingo a agência de notícias semioficial Tasnim. “Se
houver críticas ou protestos, certamente existem maneiras razoáveis e
respeitosas de expressá-los”, acrescentou.
O nezam iraniano — ou regime —, que inclui o líder supremo,
o presidente, o ministro das Relações Exteriores, o presidente do parlamento e
as forças armadas, tem procurado demonstrar unidade em seus esforços para
negociar uma solução diplomática com Trump. No entanto, elementos centrais da
República Islâmica — incluindo a emissora estatal, dirigentes nacionalistas hisrtóricos radicalizados e manifestantes que afirmam ter saído vitoriosos da guerra contra os
Estados Unidos e Israel — intensificaram seus esforços contra qualquer acordo,
considerando-o como uma renúncia às conquistas alcançadas durante a guerra.
O grupo intensificou seus esforços na mídia, no parlamento e
nas ruas para se opor a um acordo com os EUA, argumentando que somente
derrotando Washington o Irã poderá garantir um acordo favorável. “Eles (os EUA)
perceberam que matar nossos líderes, comandantes e entes queridos não lhes
custa nada”, dizia um artigo criticando as negociações no Raja News, que
representa a Frente Paydari. “Eles entenderam que, mesmo que martirizem nosso
Imam (Ali Khamenei), ainda haverá grupos aqui dispostos a negociar, apertar as
mãos de (Steve) Witkoff, (JD) Vance e (Jared) Kushner, e sorrir para os
assassinos de nosso Imam martirizado.”
Os membros se opõem às negociações com os EUA. Eles acusaram as autoridades iranianas de serem "covardes" por se envolverem em conversas que infligirão "danos imensos à nação iraniana". Acusam o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, de conluio e têm procurado inflamar a opinião pública por meio de discursos em comícios de rua noturnos com grande audiência popular!
