Dez mortos, uma centena de feridos, destruição, barricadas e
saques foram as marcas deixadas neste sábado (21) pelos violentos protestos
desatados na Nicarágua contra uma reforma previdenciária, que levaram o governo
Sandinista do presidente Daniel Ortega a reconhecer uma situação de grave crise
política no país: "O governo está totalmente de acordo em retomar o
diálogo para a paz, para a estabilidade para o trabalho, para que nosso país
não fique em meio ao terror que está vivendo neste momento", afirmou Daniel
Ortega em pronunciamento em rede nacional de televisão. Ortega não deu uma data
para o início do suposto "diálogo nacional" proposto na sexta-feira
pela câmara nacional patronal, mas afirmou que seus representantes estão
prontos para "discutir todas as medidas tomadas". Nesse mesmo dia
tiveram início os mais violentos protestos no país em 11 anos que o governo
Sandinista retornou ao poder central, após "enterrar" a revolução de
1979 em troca de eleições burguesas gerais em 1990. O retorno do governo Sandinista
na última década, foi marcado por uma gestão neoliberal de Daniel Ortega e sua
esposa Rosario Murillo (vice-presidente), combinando políticas sociais
compensatórias que agora parecem estar se esgotando com a crise econômica por
que passa o país. O Sandinista Ortega, uma espécie de "Chavez que já foi
Fidel", apesar de sua "dura" política econômica monetarista que
não pretende quebrar o pacto capitalista celebrado com a velha burguesia
somozista, sofre uma oposição cerrada dos setores patronais diretamente
vinculados ao imperialismo ianque, inconformados com os sucessivos êxitos
eleitorais de Daniel e sua esposa. A introdução de novas regras no
INSS(Instituto Nicaraguense de Previdência Social), aumentando a taxação de
patrões e trabalhadores, foi o "start" para a deflagração de
violentos protestos armados e apoiados diretamente pelo Departamento de Estado
dos EUA. O "que está acontecendo no nosso país não tem nome", disse o
presidente Ortega acompanhado da esposa, Rosario Murillo, e do alto comando militar
e policial. Sem citar nomes, Daniel disse que os protestos são incentivados por
grupos políticos contrários ao seu governo e financiados por setores
extremistas dos Estados Unidos: "Tem todo o direito de criticar (...) mas
não tem o direito de conspirar para destruir e, pior ainda, procurar lá nos
Estados Unidos os grupos políticos mais extremistas do império que, em primeiro
lugar, são racistas", afirmou o Sandinista em seu discurso a nação. Após o
discurso do presidente, o primeiro desde o início as manifestações violentas,
centenas de jovens voltaram a enfrentar a tropa de choque na capital. Com os
rostos cobertos por camisetas, os jovens ergueram barricadas nas ruas e
atiraram rojões nos policiais, que respondiam com bombas de gás lacrimogêneo. A
federação patronal advertiu neste sábado que "não pode haver um
diálogo" com o governo se não acabar imediatamente a repressão policial
contra os manifestantes que protestam há quatro dias: "Exigimos urgente do
governo cessar de imediato a repressão policial e das forças de choque afins ao
governo e garantir o direito à livre mobilização pacífica", declarou um
representante da federação nacional patronal em um comunicado, revelando assim
o apoio político da burguesia as manifestações contra o governo Ortega. Os
reacionários empresários exigiram, por ironia da história para: "libertar
de forma imediata os cidadãos detidos por exercerem seu direito a se expressar
livre e pacificamente" e "garantir a irrestrita liberdade de imprensa
e de expressão". O comunicado patronal deste sábado, assinado pelas
câmaras que integram o Conselho Superior da Empresa Privada (COSEP), reconhecem
que os protestos: "vão além do descontentamento com as reformas do sistema
de pensões". Em Manágua, foram danificados o Ministério da Juventude, o
prédio da Previdência Social, a Universidade de Engenharia e a sede da oficial
Rádio "Ya". Nas cidades de León e Masaya houve "queima de
carros", saque e destruição de prédios públicos", bem como roubos em
lojas, denunciou o governo Sandinista. Por sua vez o embaixador dos EUA na OEA,
exigiu o fim imediato da repressão aos protestos, advertindo Ortega dos riscos
de uma intervenção direta do imperialismo ianque no país. Os Marxistas
Revolucionários que não nutrem a menor simpatia política pelo "Neosandinismo",
responsável por sufocar a maioria das conquistas da gloriosa revolução
nicaraguense de 1979, não podem apoiar as iniciativas "populares" da
reação burguesa impulsionadas pelo Departamento de Estado dos EUA, por mais
justas que sejam as críticas a malfadada e neoliberal "reforma da
previdência", copiada do modelo brasileiro que a ex-presidenta Dilma
implementou em seu governo antes de sofrer o golpe parlamentar. Desgraçadamente
o revisionismo da LIT/PSTU macula mais uma vez a bandeira da IV Internacional e
do próprio Trotskismo, alinhando-se novamente com a ofensiva do governo Trump
para desestabilizar politicamente a centro-esquerda burguesa na América Latina.
Como Lenin nos ensinou "o pior inimigo dos povos é o imperialismo",
com Ortega, Maduro ou Assad nos entrincheiramos para derrotá-lo, porém com
nossa própria política e os métodos de combate revolucionário da classe
operária mundial!