quinta-feira, 22 de novembro de 2018

108 ANOS DA REVOLTA DA CHIBATA: LEVANTE DOS MARINHEIROS NEGROS DESNUDOU INCAPACIDADE DA REPÚBLICA BURGUESA EM GARANTIR OS DIREITOS DEMOCRÁTICOS PARA A BASE PROLETÁRIA DAS FFAA... COM ASCENSÃO DO GOVERNO BOLSONARO, A FRENTE ÚNICA DE AÇÃO CONTRA O NEOFASCISMO E A LUTA PELA LIBERDADE DE ORGANIZAÇÃO POLÍTICA E SINDICAL NAS FILEIRAS DO EXÉRCITO, MARINHA E AERONÁUTICA SÃO TAREFAS REVOLUCIONÁRIAS QUE ESTÃO NA ORDEM DO DIA!



A Revolta da Chibata, insurreição dos marinheiros liderada por João Cândido completa 108 anos anos neste 22 de novembro. Ao contrário da maioria dos levantes militares ocorridos durante a chamada República Velha (1889-1930), fruto das disputas políticas entre as frações oligárquicas ou dos anseios pequeno-burgueses do movimento tenentista, a revolta dos marinheiros em 1910 refletiu a luta das massas oprimidas pelo regime de exploração capitalista erguido sobre as estruturas remanescentes do período escravista, o latifúndio e a produção agrícola voltada para a exportação, herança de um país submetido à condição de semicolônia do imperialismo. A principal reivindicação dos marinheiros era o fim dos castigos físicos. Acabar com o suplício da chibata, o sofrimento e a humilhação de serem surrados com até 250 chibatadas diante dos seus companheiros e dos oficiais, como corretivo pela prática de ações consideradas como faltas disciplinares por seus superiores hierárquicos racistas. A maioria dos marinheiros era de negros e mestiços, já os oficiais da Marinha do Brasil provinham de tradicionais famílias oligárquicas de fortes tradições monarquistas e escravocratas. Isso explica porque, mesmo após ter sido oficialmente abolida há mais de 20 anos (Lei Áurea de 1888), a escravidão continuava reinando nas reacionárias forças armadas brasileiras. Nas primeiras décadas da república burguesa, a forma de recrutamento para as forças armadas ainda continuava a mesma do período imperial, ou seja, os pobres e marginalizados eram muitas vezes laçados ao estilo capitão do mato e conduzidos à força para o serviço militar, sendo apresentados como voluntários.

Além de exigir a abolição da chibata, os marinheiros reivindicam também a implantação de uma escala de trabalho para reduzir a exaustiva jornada diária, o aumento do soldo, direito à educação e a anistia para os participantes da revolta. Sob a liderança de João Cândido, que assumiu o comando do encouraçado "Minas Gerais", os marujos sublevados tomaram inicialmente os navios "São Paulo", "Bahia" e "Deodoro", concentrando em suas mãos o maior poder de fogo da esquadra. Realizando habilidosas manobras pela Baía da Guanabara, apontaram os canhões para a cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, e exigiram do governo recém eleito do Presidente Marechal Hermes da Fonseca o atendimento de suas reivindicações, dando a este um prazo de 12 horas. Ao todo, 2.379 marinheiros aderiram ao levante. Mas mesmo os que não tomaram parte diretamente não deixaram de prestar solidariedade, como foi o caso do radiotelegrafista do navio Timbira, que não aderiu à revolta, mas foi preso por avisar João Cândido sobre os planos dos oficiais da Marinha de realizarem um ataque durante a noite.

Um fato que surpreendeu os oficiais e as elites em geral foi a capacidade de organização dos marinheiros, considerados pela classe dominante como homens ignorantes. Os planos para uma insurreição já estavam preparados havia algum tempo. Mesmo assim, os marinheiros souberam manter o mais absoluto segredo, elemento fundamental para o sucesso de uma atividade conspirativa. Toda a operação foi dirigida por um comando geral, do qual faziam parte João Cândido, do Minas Gerais, Gregório Nascimento, do São Paulo, André Avelino, do Deodoro, Ricardo do Freitas e Francisco Dias Martins, do Bahia. Desse grupo, Francisco Dias Martins, o "Mão Negra", foi o responsável pela redação dos comunicados enviados ao governo. Não foi, portanto, um movimento espontâneo, mas uma ação preparada com todos os segredos da arte conspirativa.

A Revolta da Chibata ocorreu numa época de ascenso das lutas dos explorados. No início da década, em 1904, o Rio de Janeiro já havia sido sacudido pela Revolta da Vacina, quando a população rebelou-se contras os baixos salários e as péssimas condições de vida imposta pelo regime oligárquico que considerava a questão social como uma "questão de polícia". No mesmo ano de 1910 estourou a Revolução Mexicana, numa crescente onda revolucionária que culminou com o triunfo da gloriosa Revolução de Outubro de 1917 na Rússia. Não foi por acaso que a burguesia tremeu a ver tremular nos mastros dos navios rebelados a bandeira vermelha do proletariado, que instintivamente foi erguida pelos marinheiros como sinal de adesão à revolta.

A utilização do método da ação direta, obrigando o Estado burguês a ceder suas reivindicações sob o poder das armas, foi uma importante lição que os marinheiros negros da Revolta da Chibata deixaram para as massas exploradas e oprimidas. Mas o movimento tinha seus limites. Além de não estabelecer vínculos com as lutas da classe trabalhadora, os marinheiros comandados por João Cândido tinham a ilusão que poderiam assegurar suas conquistas nos marcos do Estado burguês. Dessa forma, confiaram no chefe da república oligárquica, o Marechal Hermes da Fonseca e na farsa montada pelo Congresso Nacional: depuseram as armas, entregando o comando dos navios aos oficiais reacionários sedentos por vingança, após a aprovação da anistia. Mais uma vez confirmou-se uma máxima: o que a burguesia cede com uma das mãos sob a pressão da luta dos explorados, retira logo em seguida com as duas mãos. A violenta perseguição e repressão que se seguiu, com a prisão tortura e assassinatos dos líderes e participantes do levante é uma prova irrefutável de que nenhuma conquista do povo negro e das massas trabalhadoras exploradas em geral pode estar realmente assegurada enquanto os exploradores mantiverem o poder político em suas mãos através do seu Estado opressor.

A unidade do proletariado mesmo com os setores mais avançados das FFAA só se dará em situações pré-revolucionárias. No caso específico do Exército, defendemos um programa de reivindicações transitórias destinadas aos soldados e cabos, a fim de que rompam com a hierarquia militar subordinando-se a uma clara estratégia de destruição revolucionária do aparato repressivo do Estado burguês (difusão de imprensa política nos quartéis, direito a sindicalização, formação de sindicatos vermelhos, etc.)

108 anos após a Revolta da Chibata  e com a ascensão do governo neofacista de Bolsonaro a luta pelos direitos democráticos e de organização política e sindical dos setores de base das FFAA é uma tarefa revolucionária candente. Por sua vez, passados mais de século, o povo nego constitui ainda a maioria da população pobre e marginalizada, vivendo em favelas, vítimas da violência policial e do racismo, uma arma ideológica a serviço da classe dominante para dividir as massas exploradas, dificultando a unidade do proletariado, cuja tarefa história é construir o seu partido revolucionário para pôr abaixo o Estado capitalista, único caminho para liquidar definitivamente a secular opressão do povo negro e erguer uma sociedade socialista.