ELEMENTOS DE BONAPARTISMO HOJE NO BRASIL: ABSTRAIR AS LIÇÕES
LEGADAS PELOS BOLCHEVIQUES NO COMBATE ÀS SAÍDAS BURGUESAS PARA IMPEDIR A
VITÓRIA DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO
Como parte das comemorações dos 100 anos da Revolução de
Outubro, ligando as lições teóricas e políticas do passado com as tarefas
atuais reproduzimos o texto de Trotsky, KERENSKY E KORNILOV: OS ELEMENTOS DE
BONAPARTISMO NA REVOLUÇÃO RUSSA, que aborda a questão do Bonarpatismo durante o
processo revolucionário, mais exatamente dissecando o papel de Keresky e
Kornilov. Esse artigo é de suma importância para a realidade brasileira hoje,
onde a completa liquidação “moral” e política dos partidos burgueses tradicionais
e da Frente Popular encabeçada por Lula e o PT orquestrada pelo imperialismo
pelas mãos da “Operação Lava Jata” e orientada pela CIA busca pavimentar o
caminho para a ascensão de um “Salvador da Pátria” como o Juiz fascistoide Moro
ou futuramente via um regime de exceção de corte cívico-militar. Vale salientar
a posição analítica que Trotsky imprime ao Bonapartismo. O dirigente
Bolchevique, longe de patrocinar o conceito dessa figura política como uma
liderança que “somente” arbitra os conflitos acima das classes sociais, fórmula
erroneamente muito difundida na esquerda, alerta: “A ideia de um mestre do
destino colocando-se acima das classes não é outra coisa senão a ideia do
Bonapartismo. Mas o Bonapartismo não era um árbitro entre o proletariado e a
burguesia, era na realidade o poder mais concentrado da burguesia sobre o
proletariado”. Regatamos esse artigo histórico, alertando que no Brasil,
enquanto a cúpula petista, particularmente o staff dilmista, apoiava a operação
jurídico-policial engendrada pelo imperialismo ianque para acabar com a
Petrobras e as empreiteiras nacionais, nossa corrente política em voz solitária
denunciava que o Moro havia sido formado pelo Departamento de Estado ianque e a
CIA para inicialmente perseguir o PT e depois desmoralizar o conjunto do tecido
político burguês do país, como vem fazendo agora. Seu objetivo estratégico é
edificar um novo regime político, sendo a ponta de lança de um estado de
exceção no Brasil com fortes traços Bonapartistas. Neste cenário emerge a figura
de um Bonaparte, que venha para livrar o país da “sujeira da corrupção”, tendo
coragem suficiente para colocar na cadeia alguns burgueses nacionais e
lideranças políticas tradicionais. É óbvio que todo este embuste, que nasceu
com a justificativa de “limpar a Petrobras” tem como pano de fundo a quebra das
principais empresas capitalistas que ainda detém maioria de controle acionário
nacional, como as empreiteiras e a própria Petrobras. Como nos definiu
brilhantemente o velho Marx, o Bonapartismo emerge no impasse das classes
dominantes, uma espécie de empate na correlação de forças sociais, catapultando
um governo “acima” da disputa entre as frações burguesas. Em nosso caso
concreto o Bonapartismo “Moriano” terá a “missão” de eliminar todas as barreiras
legais para a penetração do capital internacional nos negócios e obras públicas
do Estado Nacional, serão eliminadas todas as reservas de mercado para a
atuação das transnacionais no país. Trotsky ao analisar a realidade russa e de
outros exemplos históricos nos deixa importantes lições para a intervenção
atual na luta de classes.
KERENSKY E KORNILOV: OS ELEMENTOS DE BONAPARTISMO NA
REVOLUÇÃO RUSSA
(Léon Trotsky - 14 de
Novembro de 1930)
Escreveu-se bastante para dizer que as infelicidades que
seguiram, incluindo o aparecimento dos Bolcheviques, tivessem podido ser
evitados, se, no lugar de Kerensky, se encontrasse à cabeça do poder um homem
dotado de um pensamento claro e de um carácter firme. É incontestável que a
Kerensky faltava-lhe um e outro. Mas porquê então certas classes sociais
viram-se forçadas a levar precisamente Kerensky ao poder?
Como para refrescar as nossas lembranças da história, os
acontecimentos da Espanha nos mostram uma vez mais como uma revolução,
enfraquecendo os limites habituais da política, obnubilando por uma névoa nos
primeiros tempos todos e tudo. Mesmo os seus inimigos esforçaram-se, nesta
fase, a tomar a sua cor: nesse mimetismo exprime-se a tendência meio instintiva
das classes conservadoras a adoptar transmutações ameaçadoras, para sofrer o
menos possível. A solidariedade da nação, baseada numa fraseologia
inconsistente, transforma a actividade conciliadora numa função política
indispensável. Os idealistas pequeno burgueses, que olharam por cima das
classes, que pensam em frases feitas, que não sabem o que querem e dirigem a
toda a gente seus melhores votos, são, nessa ocasião, os únicos líderes
intendidos da maioria. Se Kerensky tivesse um pensamento claro e uma vontade
firme, teria sido absolutamente inutilizável no seu papel histórico. Isto não é
uma apreciação retrospectiva. É assim que julgavam os bolcheviques no calor dos
acontecimentos. "Advogado de negócios políticos, social-revolucionário que se
encontrava à cabeça dos trabalhistas, radical desprovido da menor doutrina
socialista, Kerensky reflectia completamente a primeira época da revolução, sua
apatia 'nacional', o idealismo resplandecente das suas esperanças e das suas
expectativas, escrevia o autor destas linhas, na prisão de Kerensky, após as
jornadas de Julho. Kerensky falava da terra e da liberdade, da ordem, da paz
dos povos, da defesa da pátria, do heroísmo de Liebknecht, dizia que a
revolução russa devia surpreender o mundo pela sua magnanimidade e agitava,
nesta ocasião, um lenço de seda vermelho. O pequeno burguês, meio despertado
escutava com entusiasmo tais discurso: parecia-lhe que era ele próprio que
falava do alto da tribuna. O exército acolhia Kerensky como aquele que o
libertaria de Gotchkov. Os camponeses ouviram falar dele como um trabalhistas,
um deputado dos mujiques. Os liberais eram seduzidos pela extrema moderação das
ideias sob o informe radicalismo das frases..."
Mas o período dos abraços gerais não dura muito tempo. A
luta das classes não se acalma ao princípio de uma revolução senão para despertar
sob a forma da guerra civil. No ascenso feérico do movimento conciliador está
antecipadamente incluído o seu inevitável desabar. Que Kerensky tenha
rapidamente perdido a sua popularidade, um jornalista francês, personagem
oficioso, Claude Anet, explicava pelo facto que a falta de tacto levava o
político socialista a cometer acções que «se harmonizavam pouco» com o seu
papel.
«Ele frequenta os lugares imperiais. Habita o palácio de
Inverno ou o de Tsarkoie. Deita-se na cama dos imperadores da Rússia. Um pouco
demasiado de vaidade, e que se mostra; isso choca neste país o mais simples do
mundo.» (Claude Anet, La Révolution russe, juin-novembre 1917, p.15-16).
O tacto nas pequenas como nas grandes coisas supõe a
inteligência da situação e do lugar que aí se ocupa. Aparentemente Kerensky não
tinha nada disso. Ele era estranho à confiança das massas, não as compreendia e
nem queria saber como elas recebiam a revolução e que deduções elas tiravam. As
massas esperavam dele actos audaciosos, mas ele pedia às massas para não o
estorvarem a sua magnanimidade e a sua eloquência. Na época quando Kerensky
visitava de forma teatral a família do czar detida, os soldados que guardavam o
Palácio, diziam ao comandante: «Nós, dormimos sobre as pranchas, somos mal alimentados,
mas Nicolachka, mesmo se preso, tem carne, que deita no lixo.» Essas palavras
não eram «magnânimas», mas elas exprimiam o que sentiam os soldados.
Tendo-se arrancado aos seus obstáculos seculares, o povo, a
cada passo, passava o limite que lhe tinham indicado os líderes cultivados.
Kerensky vomitava sobre isso, no fim de Abril:
«É possível que o livre Estado russo seja um Estado de
escravos revoltados?... Lamento não estar morto há dois meses: eu seria morto
com um grande sonho», etc.
Por esta má retórica, ele esperava influenciar os operários,
os soldados, os marinheiros, os camponeses. O almirante Koltchak conta a
seguir, diante do tribunal soviético, como o ministro radical da Guerra tinha
feito em Maio a volta dos navios da frota do mar Negro, para reconciliar os
marujos com os oficiais. O orador, após cada discurso acreditava ter atingido o
seu objectivo: «Bem, vê, senhor almirante, tudo está resolvido...» Mas nada
estava resolvido: a derrota da frota apenas se iniciava.
Mais se avançava, mais Kerensky irritava as massas pelas
suas fantasias, fanfarronices. No decurso de uma viagem à frente, gritavam com
paixão na sua carruagem, ao seu ajudante, calculando talvez que seria ouvido
pelos generais: «Expulsem-me daqui para fora esses malditos comités!»
Apresentando-se à frota do Báltico, Kerensky ordenou ao comité central dos
marinheiros de se apresentar diante dele no navio almirante. O Tsentrobalt,
como órgão soviético, não estava subordinado ao ministro e considerou esta
ordem como um ultraje. O presidente do comité, o marujo Dybenko, respondeu: «Se
Kerensky quer conversar com o Tsentrobalt, ele que venha até nós.» Não é uma
intolerável insolência?
Nos navios onde Kerensky iniciou conversa política com os
marinheiros, o assunto não foi mais fácil, particularmente no navio Respublika,
animado por sentimentos bolcheviques, onde o ministro foi interrompido ponto
por ponto. Porquê, na Duma do Império, ele votou pela guerra? Porquê assinou a
nota imperialista de Miliokov no 21 de Abril? Porquê autorizou aos senadores do
czar seis mil rublos de pensão por ano? Kerensky recusou responder a essas
questões perfídias que lhe metiam os homens «que não eram seus amigos». A
tripulação declarou que as explicações do ministro não eram satisfatórias...»
Foi num silêncio sepulcral que Kerensky desembarcou. «Escravos revoltados!»
Dizia o advogado radical que rangia os dentes. Mas os marinheiros tinham um
sentimento de orgulho: «Sim, nós éramos escravos, mas revoltámo-nos!»
Sem o incómodo da sua atitude em relação à opinião
democrática, Kerensky provocava a cada momento meios conflitos com os líderes
soviéticos que caminhavam no mesmo trilho que ele, mas ao se voltando mais
vezes para as massas. Desde do 8 de Março, o comité executivo assustado pelos
protestos da base, declarou a Kerensky que a libertação dos polícias detidos
era inadmissível. Alguns dias depois, os conciliadores viram-se obrigados a
protestar contra a intenção que vinha o ministro da Justiça em mandar a família
real para a Inglaterra. Duas semanas ou três mais tarde, o comité executivo
metia a questão geral de um «regulamento das relações» com Kerensky. Mas essas
relações não foram e não podia ser regularizadas.
Assim também inoportunamente se apresentou o assunto sobre a
linha do partido. No congresso socialista-revolucionário do início de Junho,
Kerensky foi submetido à eleição para o comité central, tendo obtido cento e
trinta e cinco votos sobre duzentos e setenta. Como se debatiam os líderes,
explicando à direita e à esquerda que «muitos votos tinham sido recusados ao
camarada Kerensky porque ele já estava sobrecarregado.» Na realidade, se os
socialistas-revolucionários do estado-maior e dos departamentos ministeriais
adoravam Kerensky, como fonte lucros, os velhos socialistas-revolucionários
ligados às massas consideravam-no com desconfiança e sem estima. Mas nem o
comité executivo nem o partido socialista-revolucionário não podia se passar de
Kerensky: ele era indispensável como elo de ligação com a coligação.
No bloco soviético, o papel dirigente pertencia aos
mencheviques: eles imaginavam as decisões, isto é, os meio de esquivar os
actos. Mas, no aparelho governamental, os populistas eram preponderantes sobre
os mencheviques que se traduzia claramente pela situação dominante de Kerensky.
Meio cadete, meio socialista-revolucionário, Kerensky era no governo não um
representante dos sovietes como Tseretelli ou Tchernov, mas um laço vivo entre
a burguesia e a democracia. Tseretelli—Tchernov representavam um dos aspectos
da coligação. Kerensky era a incarnação pessoal da própria coligação.
Tseretelli queixava-se da predominância em Kerensky dos «motivos individuais»,
não compreendendo que eles eram inseparáveis da sua função política. O próprio
Tseretelli, como ministro do Interior, lançou uma circular sobre o tema do
comissário provincial que deve apoiar-se sobre todas «as forças vivas» locais,
isto é sobre a burguesia e os sovietes, e aplicar a política do governo
provisório sem ceder «às influências dos partidos». Esse comissário ideal, colocando-se
acima das classes e dos partidos hostis para se inspirar nele próprio e na
circular a sua própria vocação – era com efeito um Kerensky à medida de uma
província ou de um distrito. Para coroar o sistema, havia necessidade absoluta
do comissário pan-russo independente no palácio de Inverno. Faltando Kerensky,
o sistema conciliador teria sido como um campanário sem cruz.
A história da ascensão de Kerensky está cheia de lições. Ele
tornou-se ministro da Justiça graças à insurreição de Fevereiro que ele temia.
A manifestação de Abril dos «escravos revoltados» fê-lo ministro da Guerra e da
Marinha. Os combates de Julho, provocados por «agentes da Alemanha»,
colocaram-no à cabeça do governo. No princípio de Setembro, o movimento das
massas ainda fez do chefe do governo um generalíssimo. A dialéctica do regime
conciliador e, ao mesmo tempo, a sua ironia malvada consistiam nisto que, pela
sua pressão, as massas deviam levar Kerensky à cimeira antes de o derrubar.
Afastando com desprezo o povo que lhe tinha dado o poder,
Kerensky procurava avidamente os sinais aprovadores da sociedade cultivada.
Desde dos primeiros dias da revolução, o doutor Kichkine, líder dos cadetes de
Moscovo, conta, no seu regresso de Petrogrado: «Se não fosse Kerensky nós não
tínhamos o que temos. Seu nome será inscrito em letras de ouro sobre as tábuas
da história.» Os elogios dos liberais tornaram-se um dos mais importantes
critérios políticos de Kerensky. Mas ele não podia e não queria colocar
simplesmente a sua popularidade nos pés da burguesia. Pelo contrario, gostava
cada vez mais ver todas as classes aos seus pés. «A ideia em opor e de
equilibrar entre elas a representação da burguesia e a da democracia –
testemunha Miliokov – não era estranha a Kerensky desde do princípio da
revolução. Esta orientação procedia naturalmente de todo o decurso da sua
existência que se tinha passado entre os círculos clandestinos e a advocacia.
Assegurando obsequiosamente a Buchanan que «o soviete morreria de morte
natural», Kerensky, a cada momento, fazia temer aos seus colegas burgueses a
cólera do soviete. Mas, em frequentes casos, onde os líderes do comité
executivo estavam em desacordo com Kerensky, ele ameaçava-os com a mais
terrível catástrofe: a demissão dos liberais.
Quando Kerensky repetia que não queria mais ser o Marat da
revolução russa, isso significava que recusava tomar medidas rigorosas contra a
reacção, mas não contra a «anarquia». Tal é em geral a moral dos adversários da
violência na política; afastam-na quando se trata de modificar o que existe;
mas, para defender a ordem, eles não recuam diante da repressão mais
implacável.
No período da preparação da ofensiva sobre a frente,
Kerensky tornou-se o personagem particularmente favorito das classes
possuidoras. Terechtchenko contava para quem quisesse ouvi-lo como os aliados
apreciavam altamente «os esforços de Kerensky»; muito severo para os conciliadores,
a Rietch dos cadete sublinhava invariavelmente a sua predilecção pelo ministro
da Guerra; o próprio Rodzianko reconhecia que «esse jovem... ressuscitava cada
dia com duplo vigor, para bem da pátria e para o trabalho construtor». Por tais
julgamentos, os liberais queriam afagar Kerensky. Mas em resumo, eles não
podiam deixar de ver que Kerensky trabalhava para eles. «... Pensai um pouco,
dizia Lenine – o que aconteceria a Gotchkov se ele começasse a dar ordens de
ofensiva, a dissolver os regimentos, a prender os soldados, a proibir os
congressos, a gritar atrás dos militares, tratando-os por tu e tratando-os de
«cobardes» etc. Mas Kerensky pode ainda oferecer-se esse «luxo», enquanto que
não esgotar a confiança, na verdade vertiginosamente decrescente, que o povo
lhe deu...»
A ofensiva, que tinha aumentado a reputação de Kerensky nas
fileiras da burguesia, minou definitivamente a sua fama no povo. O fiasco da
ofensiva foi em suma o fiasco de Kerensky nos dois campos. Mas, coisa
impressionante: o que o tornou «insubstituível» doravante, era que ele se
comprometia pelos dois lados. Sobre o papel de Kerensky na criação da segunda
coligação, Miliokov exprime-se assim : «O único homem que era possível», mas,
infelizmente! «não aquele que tínhamos necessidade...» Os dirigentes da
política liberal não tinham aliás nunca tomado Kerensky muito a sério. E muitos
círculos da burguesia faziam cair cada vez mais sobre ele a responsabilidade de
todos os azares. «A impaciência dos grupos animados pelo espírito patriótico»
incitava-os, segundo o testemunho de Miliokov, a procurar um homem forte.
Durante um certo tempo, o almirante Koltchak foi apontado para esse papel. A
instalação de um homem forte ao leme «concebia-se segundo outros procedimentos
que as conversações e acordos». Pode-se acreditar sem dificuldades. «Sobre um
regime democrático, sobre a vontade popular, sobre a Assembleia constituinte –
escreve Stankevitch sobre o partido cadete – as esperanças já tinham sido
abandonadas; as eleições municipais em toda a Rússia já não tinham dado uma
esmagadora maioria aos socialistas?... E então começaram a procurar um poder
que seria capaz não de persuadir, mas somente ordenar.» Mais exactamente
falando: um poder que seria capaz de tomar a revolução pelas goelas.
Na biografia de Kornilov e das particularidades do seu
carácter, não é fácil destacar os traços que teriam justificado a sua
candidatura ao posto de salvador. O general Martynov que, em tempo de paz,
tinha sido um chefe de serviço de Kornilov, e, durante a guerra, o seu
companheiro de cela numa fortaleza austríaca, caracteriza Kornilov nos
seguintes termos: «Distinguindo-se pela sua perseverança laboriosa e pela sua
grande presunção, ele era, pelas suas capacidades intelectuais, um homem da
média vulgar sem grandes vistas.» Martynov inscreveu no activo de Kornilov dois
traços: a bravura pessoal e o desinteresse. Num meio onde se preocupam antes de
tudo da segurança pessoal e onde se roubava sem vergonha, tais qualidades
saltavam aos olhos. Quanto às capacidades estratégicas, sobretudo a de apreciar
uma situação no seu conjunto, nos seus elementos materiais e morais, Kornilov
não tinha sobra disso. «Tanto mais, faltava-lhe o talento organizador, diz
Martynov – e o seu carácter tão irascível como desequilibrado tornava-o pouco
apto para actos racionais.» Brossilov, que tinha observado toda a actividade
militar do seu subordinado no decurso da guerra mundial, falava dele com
absoluto desdém: «Chefe de um destacamento intrépido de partidários, e nada
mais...»
A legenda oficial que foi criada à volta da divisão de
Kornilov era ditada pela necessidade que tinha a opinião patriótica em
descobrir as tarefas claras sobre um fundo sombrio. «A 48ª divisão, escreve
Martynov, foi liquidada unicamente no seguimento da detestável direcção... do
próprio Kornilov, que..., não soube organizar a retirada e que, sobretudo,
modificou várias vezes as suas decisões e perdeu tempo...» No último momento,
Kornilov abandonou à mercê da sorte a divisão que ele tinha lançado na luta,
para tentar ele próprio à captura. Todavia, após ter errado durante quatro
dias, o general de má sorte rendeu-se aos austríacos e só mais tarde se
evadiu.» Regressado à Rússia, nas entrevistas dadas a diversos correspondentes
de jornais, Kornilov embelezou a história da sua evasão com as flores vivas da
fantasia. «Sobre as prosaicas rectificações feitas à legenda pelos testemunhos
bem informados, não temos motivo de parar. Aparentemente desde então, Kornilov
tomou gosto pela publicidade jornalística.
Antes da revolução, Kornilov era um monárquico da nuança
reaccionária Cem Negro. Prisioneiro, lendo as gazetas, repetiu várias vezes que
teria «pendurado com prazer esses Gotchkov e Miliokov». Mas as ideias políticas
não ocupavam, como em geral os homens desta espécie, senão na medida onde elas
o tocavam directamente. Após a revolução de Fevereiro, Kornilov declarou-se
facilmente republicano. «Ele discernia muito mal – diz ainda o mesmo Martynov –
os interesses interligados das diferentes camadas da sociedade russa, não conhecendo
nem os grupos de partidos, nem as personalidades.» mencheviques,
socialistas-revolucionários e bolcheviques confundiam-se para ele numa só massa
hostil que impedia os comandantes de comandar, os proprietários de gozar das
suas propriedades, os fabricantes de continuar a sua produção, os comerciantes
de comercializar.
O comité da Duma do Estado, desde do 2 de Março, chocou com
o general Kornilov, e, sob a assinatura de Rodzianko, insistia junto do Grande
Quartel General que este o nomeasse «o nobre herói, ilustre em toda a Rússia»
comandante em chefe das tropas da região militar de Petrogrado. Sobre o
telegrama de Rodzianko, o czar, que tinha já deixado de ser czar, escreve:
«Aprovado.» Foi assim que a capital revolucionária foi dotada do seu primeiro
general vermelho. Nos processos verbais do comité executivo do 10 de Março está
registada esta frase de Kornilov: «General da velha formação, que quer pôr fim
à revolução.» Nos primeiros dias, o general tentou aliás mostrar o seu bom lado
e, ainda com algum alarde, cumpriu o rito da prisão da czarina: ganhou pontos
com isso. Segundo as lembranças do coronel Kobylinsky, que ele nomeou
comandante de Tsarkoie-Selo, foi descoberto que Kornilov jogava duas cartas
diferentes. Depois de ter sido apresentado à czarina, conta Kobylinsky, em
termos discretos, «Kornilov disse-me:«Coronel, deixe-nos sós. Vá se meter no
outro lado da porta.» Saí. Cinco minutos depois, Kornilov chamou-me. Voltei. A
soberana estendeu-me a mão...» É claro; Kornilov tinha recomendado o coronel
como um amigo. Logo, conhecemos cenas de abraços entre o czar e o seu
«carrasco» Kobylinsky. Como administrador; Kornilov mostrou-se no seu novo
posto o último dos medíocres. «Os seus colaboradores imediatos em Petrogrado –
escreve Stankevitch queixava-se constantemente da sua incapacidade para o
trabalho e a resolução dos assuntos correntes.»
Kornilov não se manteve muito tempo na capital. Durante as
jornadas de Abril, tentou, sob incitação da parte de Miliokov, efectuar uma
primeira sangria na revolução, mas embateu na resistência do comité executivo,
e demitiu-se, obtendo o comando de um exército, e logo, na frente Sudoeste. Sem
esperar a instituição legal da pena de morte, Kornilov deu ordem de fuzilar os
desertores e de expor os cadáveres com cartazes nas estradas, ameaçando com
penas severas os camponeses que atacassem os direitos da propriedade dos
domínios, formou batalhões de choque e, nas ocasiões propícias, ameaçou
Petrogrado. Assim se esboçou à volta do seu nome uma aura aos olhos do corpo
dos oficiais e das classes possuidoras. Mas também comissários de Kerensky
pensaram que a sua esperança era Kornilov. Algumas semanas mais tarde, o
combativo general, com a sua triste experiência de comandante de divisão,
tornava-se o generalíssimo de muitos milhões de homens, de um exército em
decomposição que a Entente queria forçar a combater até à vitória total.
Por isso Kornilov perdeu a cabeça. A sua ignorância política
e a estreiteza das suas perspectivas faziam dele uma presa fácil para os aventureiros.
Defendendo obstinadamente as suas prerrogativas pessoais, «o homem com coração
de leão e com cérebro de ovelha», como foi caracterizado pelo general Alexeiev
e, também por Verkhovsky, cedia facilmente à influência de outrem, no momento
que convinha à sua ambição particular. Amigavelmente disposto para Kornilov,
Miliokov nota nele «uma confiança infantil nas gente que sabe lisonjear». O
mais próximo inspirador do generalíssimo, tendo o modesto título de ordenança
foi um certo Zavoiko, personagem esquisito, antigo proprietário, especulador de
petróleo e aventureiro, cuja pluma impunha-se particularmente a Kornilov:
Zavoiko possuía o estilo alegre do larápio que nada pode parar. O ordenança era
o empresário do reclame, o autor de uma biografia «popular» de Kornilov, o
redactor do relatório, do ultimato e, em geral, de todos os documentos que,
segundo a expressão do general, exigiam «um estilo vigoroso, artístico».
A Zavoiko juntou-se um outro aventureiro, Nadine, antigo
deputado da primeira Duma, tendo passado vários anos na emigração, que tinha
sempre o seu cachimbo inglês na boca e que, por isso se considerava como um
especialista de questões internacionais. Um e outro eram a mão direita de
Kornilov, assegurando a sua ligação com os focos da contra-revolução. O seu
flanco esquerdo era coberto por Savinkov e Filonenko: apoiado por todos os
meios a opinião exagerada que o general fazia dele próprio, eles preocupavam-se
em o impedir de se render prematuramente à democracia. «Juntavam-se a ele gente
honesta e desonesta, sincera e intrigantes, políticos, militares e aventureiros
– escreve na sua ênfase patética o general Denikine – e todos diziam em coro:
«Sê o salvador!» Qual era a proporção dos honestos e desonestos, não era fácil
concluir. De qualquer modo, Kornilov considerava-se seriamente como chamado
para a «salvação» e se encontrou logo concorrente directo de Kerensky.
Os rivais detestavam-se sinceramente um ao outro. «Kerensky
– segundo Martynov – tinha-se assimilado um tom altivo nas suas relações com os
velho generais. O modesto e laborioso Alexeiev, e Brossilov o diplomata,
deixavam-se tratar de alto a baixo, mas esta táctica não se aplicava ao vaidoso
e susceptível Kornilov que..., pelo seu lado, olhava do alto o advogado
Kerensky.» O mais fraco dos dois estava disposto a fazer concessões e fazia
ofertas sérias. Pelo menos, no fim de Julho, Kornilov declarou a Denikine que,
das esferas governamentais, convites foram-lhe feitos para entrar no governo.
«Ah! Não! Esses senhores estão demasiado ligados aos sovietes... Digo-lhes:
dê-me o poder e travarei a luta decisiva.»
Sob os pés de Kerensky, o chão era movediço como jazigos de
turfa. Ele procurava uma saída, assim como sempre, no domínio das improvisações
oratórias: reunir, proclamar, declarar. O sucesso pessoal do 21 de Julho,
quando se ergueu acima dos campos hostis da democracia e da burguesia na
qualidade de homem insubstituível, sugeriu a Kerensky a ideia de uma
conferência de Estado em Moscovo. O que se passou à porta fechada no palácio de
Inverno devia ser relatada numa cena aberta. Que o país veja com os seus
próprios olhos que tudo se rompe pelas costuras se Kerensky não toma nas mãos
as rédeas e o chicote!
Foram convidados para participar na conferência de Estado,
segundo a lista oficial, «os representantes das organizações políticas,
sociais, democráticas, nacionais, comerciais e industriais, cooperativas, os
dirigentes dos órgãos da democracia, os altos representantes do exército, das
instituições científicas, as universidades, os membros da Duma do Estado das
quatro legislaturas». Previa-se cerca de cento e cinquenta participantes;
juntaram-se duzentos e cinquenta pessoas, e a vantagem ia para a ala direita. O
jornal moscovita dos socialistas-revolucionários escrevia com admoestação ao
seu governo: «Contra cento e cinquenta representantes da classe comerciante e
industrial. Contra cem deputados camponeses são convidados cem representantes
de proprietários de terras. Contra cem representantes do soviete haverá
trezentos membros da Duma do Estado...» O jornal do partido de Kerensky
duvidava que tal conferência desse ao governo «o apoio que ele procurava».
Os conciliadores foram à conferência de má vontade: é
preciso, diziam para se convencerem entre eles, tentar honestamente chegar a um
acordo. Mas como fazer com os bolcheviques? Era indispensável impedi-los a todo
o custo de intervir no diálogo entre a democracia e as classes possuidoras.
Pela decisão especial do comité executivo, as fracções dos partidos estavam
privadas do direito de se pronunciarem sem o acordo do seu secretariado. Os
bolcheviques decidiram ler, em nome do partido, uma declaração e de abandonar a
conferência. O secretariado que vigiava de perto cada um dos seus movimentos
exigiu deles que renunciassem à intenção criminosa. Então os bolcheviques, sem
hesitarem, devolveram os seus cartões de entrada. Prepararam uma diferente
resposta, mais convincente: a palavra pertencia a proletariado moscovita.
Logo a partir dos primeiros dias da revolução, os
partidários da ordem opunham, no momento oportuno, o «país» calmo ao turbulento
Petrogrado. A convocação da assembleia constituinte em Moscovo era uma das
palavras de ordem da burguesia. O «marxista» Potressov, nacional-liberal,
proferia maldições sobre Petrogrado, que se imaginavam ser «um novo Paris».
Como se os Girondinos não tivessem ameaçado com as suas iras a velho Paris e
não lhe tivessem proposto de reduzir o seu papel a 1/3! Um menchevique da
província dizia, em Junho, no congresso dos sovietes: «Qualquer Novotcherkask
reflecte muito mais justamente as condições de existência em toda a Rússia que
Petrogrado.» No fundo, os conciliadores, como a burguesia, procuravam o apoio
não nas verdadeiras disposições do espírito do «país», mas na ilusão
consoladora que eles próprios acreditavam. Agora que iam ter de tomar o pulso
da opinião política de Moscovo, os organizadores da conferência estavam
destinados a uma desilusão cruel.
As conferências contra-revolucionárias que se sucediam desde
os primeiros dias do mês de Agosto, a começar pelo congresso dos proprietários
de terras e acabando pelo concílio eclesiástico, não mobilizam somente os
sectores possuidores de Moscovo, mas igualmente os operários e soldados. As
ameaças de Riabochinsky, os apelos de Rodzianko, a fraternização dos cadetes
com os generais cossacos – tudo isso tinha lugar sob os olhos das camadas
baixas moscovitas, tudo isso era interpretado pelos agitadores bolcheviques no
calor dos resumos dos jornais. O perigo de uma contra-revolução tomou, desta
vez, formas tangíveis, e mesmo pessoais. Nas fábricas e oficinas passou uma
vaga de indignação. «Se os sovietes são impotentes – escrevia o jornal
moscovita dos bolchevique – o proletariado deve juntar-se à volta das suas
organizações viáveis.» Na primeira fila avançaram os sindicatos que já se
encontravam, na sua maioria, sob a direcção bolchevique. O estado de espírito
nas fábricas era de tal forma hostil à conferência de Estado que a ideia, vinda
de baixo, de uma greve geral, foi adoptada quase sem oposição à reunião dos
representantes de todas as células da organização moscovita dos bolcheviques.
Os sindicatos tomaram a iniciativa. O soviete moscovita, por
uma maioria de trezentos e sessenta e quatro votos contra trezentos e quatro,
pronunciou-se contra a greve. Mas como, nas sessões das fracções, os operários
mencheviques e socialistas-revolucionários votavam pelas greves e só se
submetiam à disciplina do partido, na decisão do soviete na composição não
tinha sido renovada havia já bastante tempo, decisão tomada contra a vontade da
sua verdadeira maioria, não era feita para prender os operários de Moscovo. A
assembleia das direcções de quarenta e um sindicatos decidiu chamar os
operários a uma greve de um dia por protesto. Os sovietes dos bairros se
encontraram em maioria do lado do partido e dos sindicatos, as fábricas
reclamaram imediatamente novas eleições para o soviete de Moscovo, que se tinha
não somente deixado distanciar pelas massas, mas tinha caído num grande
antagonismo com elas. No soviete do distrito de Zamoskvorietchi (arredores de
Moscovo ao sul de Moscova), de acordo com os comités de fábrica, exigia-se que
os deputados que tinham funcionado «contra a vontade da classe operária» fossem
substituídos, isso por cento e setenta e cinco votos contra quarto, e dezanove
abstenções!
A noite que procedeu a greve foi mesmo assim cheia de
alarmes para os bolcheviques de Moscovo. O país caminhava nas pegadas de
Petrogrado, mas com atraso. A manifestação de Julho tinha falhado em Moscovo:
não somente a maioria da guarnição, mas a dos operários tinha decidido não sair
à rua, contra a vontade do soviete. Que aconteceria desta vez? A manhã trouxe a
resposta. A oposição dos conciliadores não impediu a greve de se tornar uma
potente manifestação de hostilidade em relação à coligação e ao governo. Dois
dias antes, o jornal dos industriais de Moscovo escrevia presunçosamente: «Que
o governo de Petrogrado venha depressa a Moscovo, que dê atenção às vozes dos
lugares sagrados, aos sinos, às santas torres do Kremlin.» Hoje, a voz dos
lugares sagrados se encontra abafada pelo silêncio que precede o vendaval.
Um membro do comité moscovita dos bolcheviques, Piatnitsky,
escreveu a seguir: «A greve..., passa-se magnificamente. Nem luz, nem
eléctricos; as fábricas, as oficinas, e os depósitos do caminho de ferro não
trabalham, e mesmo os empregados dos restaurantes estavam em greve.» Miliokov
acrescentou a esse quadro uma imagem viva: «Os delegados que se tinham juntado
para a conferência, não podiam viajar num eléctrico ou tomar o pequeno-almoço
num restaurante»: isso permitiu-lhe, como confissão de historiador liberal,
apreciar tanto mais a força dos bolcheviques que não foram admitidos na
conferência. As Izvestia do soviete de Moscovo definiram integralmente a
importância da manifestação do 12 de Agosto: «Apesar da decisão dos
sovietes..., as massas seguiram os bolcheviques». Quatro mil operários fizeram
greve em Moscovo e nos arrabaldes a convite do partido e cujos líderes ainda
estavam retido pela vida clandestina ou presos. O novo órgão do partido em
Petrogrado, o Proletarii, antes de ser proibido, tinha tido tempo de colocar
aos conciliadores esta questão: «De Petrogrado a Moscovo, mas de Moscovo, onde
vai?» Os mestres da situação deviam questionarem-se. Em Kiev, em Kostroma, em
Tsaritsyne, tiveram lugar greves de protesto de um dia, gerais ou parciais. A
agitação amparou-se de todo o país. Por todo o lado, nos lugares mais
longínquos, os bolcheviques avisavam que a conferência de Estado tinha um
carácter muito acentuado de conspiração contra-revolucionária: cerca do fim do
mês de Agosto, o conteúdo desta formula desvendou-se integralmente diante dos
olhos de todo o povo.
Os delegados na conferência, assim como a burguesia
moscovita, esperavam uma manifestação armada das massas, escaramuças, combates,
«jornadas de Agosto». Mas para os operários, descer à rua, seria expor-se aos
golpes dos cavaleiros de São Jorge, destacamentos de oficiais, junkers, certos
contingentes da cavalaria que ardentemente desejam vingar-se sobre a greve.
Chamar a guarnição para a rua, seria introduzir aí uma cisão e facilitar a obra
da contra-revolução que se levantava, com o dedo no gatilho. O partido não
pedia que se saísse à rua, e os próprios operários, justamente guiados pelo seu
instinto, evitavam o choque aberto. A greve de um dia respondia melhor à
situação: não se podia dissimulá-la como a conferência tinha jogado para o
cesto dos papéis a declaração dos bolcheviques. Quando a cidade mergulhou nas
trevas, toda a Rússia viu a mão dos bolcheviques sobre o interruptor. Não,
Petrogrado não está isolada! « Em Moscovo, sobre o espírito patriarcal e a
resignação do qual estavam colocadas muitas esperanças, os bairros operários mostraram
logo os dentes»; foi assim que Sokhanov determinou a importância desse dia. Foi
na ausência dos bolcheviques, mas diante da revolução proletária mostrando os
dentes, que a conferência da coligação foi obrigada a tomar lugar.
Os moscovitas criticavam Kerensky vindo «coroar-se» entre
eles. Mas, no dia seguinte, chegou do Grande Quartel General, com o mesmo
objectivo, Kornilov, que foi recebido por numerosas delegações, entre elas do
concílio eclesiástico. Sobre o cais diante do qual o combóio parou saltaram os
cossacos do Tek, em cáftens de vermelho vivo, sabres curvos fora dos coldres,
que formaram um corredor. As senhoras entusiasmadas cobriram com flores o herói
que passou em revista a guarda e os representantes. O cadete Roditchev terminou
o seu discurso de acolhimento por esta exclamação: «Salvai a Rússia, e o povo
reconhecido vos coroará.» Soluços patrióticos rebentaram. Morozova, negociante
milionário, meteu-se de joelhos. Oficiais levaram aos ombros Kornilov em
direcção ao povo.
Enquanto que o generalíssimo passava em revista os
cavaleiros de São Jorge, os junkers, a escola dos alferes, a sotnia dos
cossacos que se tinham alinhado na praça diante da gare, Kerensky, como
ministro da Guerra e de rival, passava em revista as tropas a guarnição de
Moscovo. Da gare, Kornilov dirigiu-se, no caminho tradicional dos czares, para
a capela da Virgem Iverskaia, onde ouve um serviço religioso na presença da
escolta de muçulmanos do Tek com uns enormes barretes de pêlo. «Esta
circunstância – escreveu o cossaco Grekov sobre o ofício religioso – dispunha
ainda melhor a favor de Kornilov todos os crentes de Moscovo.» A
contra-revolução, entretanto, esforçava-se em apoderar-se da rua. Os automóveis
propagavam uma biografia de Kornilov com o seu retrato. As paredes eram
cobertas de cartazes convidando o povo a ajudar o herói. Como se fosse
investido de um poder, Kornilov recebia na sua carruagem políticos,
industriais, financeiros. Os representantes dos bancos fizeram-lhe um relato
sobre a situação financeira do país. «Entre todos os membros da Duma – escreveu
o outubrista Chidlovsky – que visitou Kornilov, só Miliokov teve com ele uma
conversa cujo teor me é desconhecido.» Sobre esta entrevista, saberemos mais
tarde do próprio Miliokov o que ele julgará útil contar-nos.
A preparação de um golpe de Estado militar atingia o auge.
Alguns dias antes da conferência, Kornilov tinha ordenado sob pretexto de
apoiar Riga, de preparar quatro divisões de cavalaria para marchar sobre
Petrogrado. O regimento de cossacos de Orenburgo foi enviado pelo Grande
Quartel General sobre Moscovo para «manter a ordem», mas, sobre injunção de
Kerensky, parou a meio do caminho. Nas suas deposições ulteriores à comissão de
inquérito sobre o caso Kornilov, Kerensky declarou: «Nós tínhamos sido avisados
que, durante a conferência de Moscovo, a ditadura seria proclamada.» Assim,
durante os dias solenes da união nacional, o ministro da Guerra e o
generalíssimo ocupavam-se de se contrabalançar estrategicamente. Mas o decoro
mantinha-se na medida do possível. As relações dos dois campos oscilavam entre
as garantias oficialmente amigáveis e a guerra civil.
Em Petrogrado, apesar da reserva das massas – a experiência
de Julho não passou sem deixar traços – do alto, dos estados-maiores e das
redacções, com uma persistência enraivecida, se propagavam rumores sobre o
levantamento próximo dos bolcheviques. As organizações do partido em
Petrogrado, por um manifesto público, preveniram as massas da possibilidade de
apelos provocadores vindo dos inimigos. O soviete de Moscovo tomou, entretanto,
as suas medidas. Criou-se um comité revolucionário não declarado publicamente,
de seis pessoas, compreendendo dois delegados de cada um dos partidos
soviéticos, incluindo os bolcheviques. Uma ordem secreta proibiu fazer alas aos
cavaleiros de São Jorge, aos oficiais e aos junkers nas ruas onde passava
Kornilov. Aos bolcheviques que, depois das jornadas de Julho, não tinham mais
oficialmente acesso aos quartéis, distribuíam agora apressadamente entradas
livres: sem os bolcheviques, era impossível conquistar os soldados.
Enquanto que, na cena, os mencheviques e os
socialistas-revolucionários animavam as conversações com a burguesia sobre a
criação de um poder forte contra as massas dirigidas pelos bolcheviques, os mesmos
mencheviques e socialistas-revolucionários, nos bastidores, de acordo como os
bolcheviques que não tinham deixado entrar na conferência, preparam as massas
para a luta contra a conspiração da burguesia. Tendo-se oposto na véspera a uma
greve demonstrativa, os conciliadores apelavam hoje aos operários e aos
soldados para os preparativos de luta. A indignação desprezível da massas não
impedia estas de responder ao apelo nas disposições combativas que assustavam
os conciliadores pois elas não os contentavam. Uma flagrante duplicidade, tendo
tomado o carácter de traição quase aberta em relação às duas partes, teria sido
inconcebível se os conciliadores tivessem continuado conscientemente a avançar
a sua política; na realidade, eles somente sofriam as consequências.
Os grandes acontecimentos estavam, evidentemente,
suspendidas no ar. Mas durante os dias da conferência, ninguém, aparentemente,
não visava um golpe de Estado. De qualquer modo, não existia qualquer
confirmação dos rumores alegados mais tarde por Kerensky, nem nos documentos,
nem na literatura dos conciliadores, nem nas memórias da ala direita.
Tratava-se só de preparativos. Segundo Miliokov – e o seu testemunho é conforme
ao desenvolvimento ulterior dos acontecimentos – o próprio Kornilov tinha fixado
antes da conferência uma data para agir: 27 de Agosto. Esta data era, bem
entendido, conhecida por poucas pessoas. Os amadores, como sempre em tais
casos, antecipavam o dia do grande acontecimento e os rumores que o antecipavam
o dia do grande acontecimento e os rumores que o avançavam por todos os lados
confluíam para as autoridades: parecia que o golpe devia ser dado de uma hora
para a outra.
Mas, precisamente, a mentalidade exaltada das esferas
burguesas e do corpo dos oficiais podia facilmente levar a Moscovo, senão uma
tentativa de golpe de Estado, pelo menos uma manifestação contra-revolucionária
com o objectivo de experimentar forças. Ainda mais provável era a tentativa de
destacar elementos da conferência de algum centro de salvação da pátria que
tivesse feito concorrência aos sovietes: disso a imprensa de direita falava
abertamente. Mas não se chegou a esse ponto: as massas incomodavam. Se alguém
tivesse a ideia de associar a hora dos actos decisivos, era preciso dizer, sob
a força da greve: não conseguimos tomar a revolução de improviso, os operários
e os soldados estão prevenidos, é preciso deferir. E mesmo uma procissão
popular para o ícone Iverskaia, organizada pelos religiosos e os liberais de
acordo com Kornilov, foi desconvocada.
Logo que se tornou evidente que um perigo direto já não
existia, os socialistas-revolucionários e os mencheviques apressaram-se em
pretender que nada de particularmente grave não se tinha produzido. Eles
recusaram mesmo em renovar aos bolcheviques acesso livre para os quartéis,
ainda se, daí, continuavam a reclamar com insistência oradores bolcheviques. «O
Mouro fez o seu trabalho», deviam dizer entre eles com um ar esperto
Tseretelli, Dan e Khintchuk que era então presidente do soviete de Moscou. Mas
os bolcheviques não se dispunham de forma nenhuma em ocupar a posição do Mouro.
Eles só estavam ainda a preparar a realização da sua própria tarefa.
Toda a sociedade de classes necessita de uma unidade
governamental. A dualidade de poderes é essencialmente um regime de crise
social: marcando um extremo fraccionamento da nação, ela comporta, em potência
ou abertamente, a guerra civil. Ninguém queria mais a dualidade de poderes.
Pelo contrário, todos desejavam avidamente um poder sólido, unanime, uma
autoridade «de ferro». Em Julho, o governo Kerensky foi investido de poderes
ilimitados. A concepção era colocar, acima da democracia e da burguesia que se
paralisavam entre elas, segundo um acordo mútuo, uma «verdadeira» autoridade. A
ideia de um mestre do destino colocando-se acima das classes não é outra coisa
senão a ideia do bonapartismo.
Se se plantar simétricamente dois garfos numa rolha, esta,
após ter fortemente oscilado, acabará por se manter em equilíbrio sobre uma
mesma cabeça de alfinete: temos aí um modelo mecânico do árbitro supremo
bonapartista. O grau de solidez de um tal poder, se se fizer abstracção das
condições internacionais, é determinada pela estabilidade do equilíbrio das
classes antagonistas no interior do país. No meio de Maio, Trotsky designou
Kerensky, em sessão do soviete de Petrogrado, como «o ponto matemático do
bonapartismo russo». A imaterialidade da definição mostra que se tratava não do
indivíduo, mas da função. No princípio de Julho, lembramos-nos, todos os
ministros, sob orientação dos seus partidos, demitiram-se, deixando a Kerensky
o cuidado de constituir governo. No 21 de Julho, esta experiência
renovou-se sob uma forma mais
demonstrativa. As partes hostis entre elas apelaram a Kerensky, cada um via
nele qualquer coisa delas próprias, todas as duas juraram-lhe fidelidade.
Trotsky escrevia da prisão: «Dirigido pelos políticos que temiam tudo, o
soviete não ousou tomar o poder. Representando todas as cliques da propriedade,
o partido cadete ainda não podia apoderar-se do poder. Restava procurar um
grande conciliador, um intermediário, um árbitro.»
No manifesto que Kerensky publicou sob o seu próprio sob o
seu próprio nome, proclamou diante do povo:
«Eu, como chefe do governo..., não creio poder parar diante
desse facto que as modificações (na estrutura do poder)... aumentarão a minha
responsabilidade nos assuntos do direcção suprema.»
É aí, sem misturas, a fraseologia do bonapartismo. E
portanto, apesar do apoio da direita e da esquerda, o assunto não foi além da
fraseologia. Onde está a causa? Para que um pequeno corso pudesse erguer-se
acima da jovem nação burguesa, teria sido preciso que a revolução resolvesse
previamente o seu problema essencial: a repartição das terras entre os
camponeses, e que, sobre a base social, constitui um exército vitorioso. No
século XVIII, a revolução não podia ir mais longe: ela podia somente resurgir.
Nos seus recuos, porém, as suas conquistas essenciais eram postas em perigo.
Era preciso mantê-las a qualquer preço. O antagonismo aprofundado, mas ainda
muito longe da sua maturidade entre a burguesia e o proletariado, mantinha a
nação, enfraquecida nas suas bases, numa extrema tensão. Um «árbitro» nacional
nessas condições era indispensável. Napoleão garantia aos grandes burgueses a
possibilidade de concretizar lucros, aos camponeses a possessão das suas
terras, aos filhos dos camponeses e aos pobres a possibilidade da pilhagem
durante a guerra. O juiz tinha a espada na mão e preenchia ele próprio as
obrigações do oficial de diligências. O bonapartismo do primeiro Bonaparte
estava solidamente baseada.
O golpe de Estado de 1848 não deu nada e não podia dar
terras aos camponeses: não era uma grande revolução substituindo um regime
social ao outro, era uma mudança política sobre as bases de um mesmo regime
social. Napoleão III não tinha por detrás dele um exército vitorioso. Os dois
elementos principais do bonapartismo clássico eram inexistentes. Mas havia
outras condições propícias, não menos eficazes. O proletariado que, em
cinquenta anos, tinha crescido, mostrou em Junho a sua força ameaçadora; porém,
ele era ainda incapaz de tomar o poder. A burguesa temia o proletariado e a
vitória sangrenta que ela tinha obtido sobre ele. O camponês proprietário teve
medo diante da insurreição de Junho e queria que o Estado o protegesse contra
os socialistas. Enfim, o grande desenvolvimento industrial que durou, com
curtas interrupções durante duas dezenas de anos, abria à burguesia fontes
desiguais de enriquecimento. Essas condições eram suficientes para um bonapartismo
de epígono.
Na política de Bismarck, que se elevava também «acima das
classes», havia, como se indicou mais de uma vez, traços marcantes de
bonapartismo, mesmo sob a aparência do legitimismo. A estabilidade do regime de
Bismarck era assegurada por esse facto que, nascido após a revolução impotente,
tinha dado solução ou meia solução a um tão grande problema nacional como o da
unidade alemã, que tinha trazido a vitória nas três guerras, indemnizações e um
forte florescimento capitalista. Isso bastou por dezenas de anos.
A infelicidade dos russos que se candidatavam a Bonaparte
não era de forma nenhuma no que eles não se pareciam nem ao primeiro Napoleão,
nem mesmo a Bismarck: a história sabia servir-se de sucedâneos. Mas tinham
contra eles uma grande revolução que não tinha ainda resolvido os seus próprios
problemas nem esgotado as suas forças. O camponês que ainda não tinha obtido a
terra era obrigado pela burguesia a fazer guerra pelo domínio dos nobres. A
guerra só trazia derrotas. Nem se discutia o desenvolvimento industrial: pelo
contrário, o desespero causava constantemente novas devastações. Se o
proletariado recuou, nem sempre foi para consolidar as suas fileiras. A classe
camponesa só se metia em movimento pelo último avanço contra os senhores. As
nacionalidades oprimidas passavam à ofensiva contra o despotismo russificador.
Na busca da paz, o exército ligava-se cada vez mais estreitamente com os
operários e o seu partido. Em baixo juntava-se, em cima enfraqueciam-se. Não
havia equilíbrio. A revolução ficava no azedume. Não de admirar que o
bonapartismo tornou-se anémico.
Marx e Engels comparavam o papel do regime bonapartista na
luta entre a burguesia e o proletariado ao da antiga monarquia absoluta na luta
entre os feudais e a burguesia. Os traços da parecença são indiscutíveis, mas
eles não se substituíam mais, precisamente, lá onde se manifesta o conteúdo
social do poder. O papel de árbitro entre os elementos da antiga e da nova
sociedade era, num certo período, realizável na medida onde os dois regimes de
exploração tinha necessidade de se defender contra os explorados. Mas, já,
entre os feudais e os servos, não podia haver intermediário «imparcial». Ao
conciliar os interesses dos proprietários nobres de domínios e os do jovem
capitalismo, a autocracia czarista agia em relação aos camponeses não como um
intermediário, mas como uma base de poder das classes exploradoras.
E o bonapartismo não era um árbitro entre o proletariado e a
burguesia; era na realidade o poder mais concentrado da burguesia sobre o
proletariado. Tendo posto a bota sobre a cabeça da nação, Bonaparte que veio a
seguir não pode desenvolver uma política de protecção da propriedade da renda,
do lucro. As particularidades do regime não vão além dos meio de protecção. A
guarda não se mantém diante da porta, ele assenta-se sobre o pináculo; mas a
sua função é a mesma. A independência do bonapartismo é portanto, num alto
grau, toda a aparência, do simulacro, do decoro: ela tem por símbolo o manto
imperial.
Explorando sem jeito o terror do burguês diante do operário,
Bismarck, em todas as suas reformas políticas e sociais, fundou-se
invariavelmente no poder das classes possuidoras que ele nunca traiu. Em
contrapartida, a pressão crescente do proletariado permitiu-lhe sem dúvida elevar-se
acima do corpo dos junkers, acima dos capitalistas, como um arbitro
burocrático: nisso consistia a sua função.
O regime soviético admite uma considerável independência do
poder em relação ao proletariado e ao campesinato, em consequência também «a
arbitragem» entre um e outro, na medida onde os seus interesses, ainda se eles
engendram confrontos e conflitos, não são portanto inconciliáveis no fundo. Mas
não seria fácil encontrar um árbitro «imparcial» entre o Estado soviético e o
Estado burguês, pelo menos na esfera dos interesses essenciais das duas partes.
O que impede a União Soviética de aderir à Sociedade das Nações são, no campo
internacional, as mesmas causas sociais que, no quadro nacional, excluem a
possibilidade de uma «imparcialidade» efectiva e não fingida do poder entre a
burguesia e o proletariado...
Sem ter as forças do bonapartismo, o kerenskismo tinha todos
os vícios disso. Ele não se colocava acima da nação para a corromper pela sua
própria impotência. Se, em palavras, os líderes da burguesia e da democracia
tivessem prometido «obedecer» a Kerensky, na realidade o todo-poderoso árbitro
obedecia a Miliokov, e sobretudo a Buchanan. Kerensky perseguia a guerra
imperialista, protegia os domínios dos nobres contra os atentados, diferia as
reformas sociais até a tempos melhores. Se o seu governo era fraco, foi por
esta mesma razão que a burguesia não podia de forma nenhuma colocar o poder
gente como ela. Porém, qual foi a nulidade do «governo de salvação», o seu
carácter conservador-capitalista aumentava evidentemente à medida que aumentava
a sua «independência».
Compreender que o regime de Kerensky foi, por um dado
período, uma forma inevitável da dominação burguesa, não excluía, do lado dos
políticos burgueses, um descontentamento extremo em relação a Kerensky, nem dos
preparativos para se desembaraçar dele o mais rapidamente possível. No seio das
classes dominantes não havia mais desacordo sobre a necessidade de opor o
árbitro nacional, disponibilizado pela democracia pequeno-burguesa, um
personagem escolhido nas suas próprias fileiras. Porquê precisamente Kornilov?
O candidato a Bonaparte devia corresponder ao carácter da burguesia russa
atrasada, isolada do povo, decadente, inapto. No exército que não tinha
conhecido senão derrotas humilhantes, não era fácil encontrar um general
popular. Kornilov foi preconizado por selecção entre outros candidatos ainda
menos válidos.
Assim, os conciliadores não podia unir-se na coligação com
os liberais, nem concordar com eles sobre um candidato a papel de salvador: o
que lhes impedia, eram os problemas da revolução por resolver. Os liberais não
confiavam nos democratas. Os democratas não confiavam nos liberais. Kerensky,
na verdade, abria os braços à burguesia; mas Kornilov dava a entender sem
equívoco que, desde da primeira possibilidade, ele torcia o pescoço à
democracia. Decorrendo inelutavelmente da evolução precedente, o conflito entre
Kornilov e Kerensky era a tradução das incompatibilidades do duplo poder na
linguagem explosiva das ambições pessoais.
Assim como no meio do proletariado e na guarnição de
Petrogrado se tinha formado, no início de Julho, uma ala impaciente, descontente
da política demasiado circunspecta dos bolcheviques, acumulou-se, entre as
classes possuidoras, no início do mês de Agosto, impaciências em relação à
política temporizadora da direcção cadete. Este estado de espírito traduziu-se
por exemplo no congresso dos cadetes, onde alguns reclamaram a queda de
Kerensky. Ainda de forma mais violenta, a impaciência política se manifestou
fora dos quadros do partido cadete, nos estados-maiores militares, onde se
ressentia um temor contínuo diante dos soldados, nos bancos submergidos pela
inflação, nas propriedades onde o teto queimava sobre a cabeça do mestre. «Viva
Kornilov!» tornou-se a palavra de ordem da esperança, do desespero, da sede de
vingança.
De acordo em tudo sobre o programa de Kornilov, Kerensky
discutia os prazos: «Não se pode fazer tudo isso de uma só vez.» Reconhecendo a
necessidade de se separar de Kerensky, Miliokov respondia aos impacientes:
«Talvez seja ainda demasiado cedo.» Tal como o impulso das massas de Petrogrado
saiu da meia insurreição de Julho, a impaciência dos proprietários suscitou o
levantamento de Kornilov em Agosto. Tal como os bolcheviques se tinham visto
obrigados a colocarem-se sobre o terreno
de uma manifestação armada para garantir, se possível, o sucesso, e, de
qualquer modo, para a proteger contra o esmagamento, os cadetes viram-se
forçados, nos mesmos fins, a meterem-se no terreno da insurreição de Kornilov.
Nesses limites, observou-se uma espantosa simetria. Mas no quadro desta
simetria havia uma completa oposição dos objectivos, dos métodos e dos
resultados. Ela mostrou-se-nos logo no seguimento dos acontecimentos.