HÁ 44 ANOS DO GOLPE PINOCHETISTA: ABSTRAIR AS LIÇÕES DA
DERROTA DA FRENTE POPULAR CHILENA QUE ABRIU CAMINHO PARA A CONTRARREVOLUÇÃO
FASCISTA
DEFENDER A CLASSE OPERÁRIA CHILENA! O STALINISMO E A CONTRA-REVOLUÇÃO
(18 de Setembro de 1973)
"A defesa de vossos direitos democráticos, não será
feita pela Frente Popular nem pelo parlamento, mas através da derrubada do
estado capitalista e estabelecendo um governo operário. Nenhuma confiança no
stalinismo, na socialdemocracia, no centrismo, no revisionismo ou na burguesia
liberal. Pela construção de um partido revolucionário da Quarta Internacional
cujo programa será o da revolução permanente". Estas são as lições que o
heroico proletariado chileno está escrevendo com sangue ao enfrentar com suas
vidas os tanques e os pelotões de fuzilamento, enquanto os líderes burgueses
liberais estão procurando entre as casernas um general benevolente ou se
preparam para fazer as pazes com os novos amos do Chile. A classe operária nunca esquecerá a exemplar resistência dos
trabalhadores chilenos, que mostraram, não pela última vez, que são a única
força revolucionária do Chile capaz de enfrentar o imperialismo e os
capitalistas nativos. Tampouco esquecerá da covardia política e da traição dos
líderes stalinistas e dos Estados, que permitiu à burguesia chilena seguir o
exemplo da Indonésia, Grécia, Bolívia e do Sudão.
Estes acontecimentos demonstram, do modo mais sangrento, a
crise de direção na classe operária e os enormes perigos que enfrenta, como
consequência da falência do sistema monetário mundial e das medidas que Richard
Nixon colocou em prática em 15 de agosto de 1971. Foi comprovado mais uma vez que o stalinismo é o defensor
mais perseverante da propriedade burguesa e do Estado burguês e o inimigo mais
pernicioso da classe operária na sua luta pela defesa dos direitos
democráticos.
Desde o início do regime de Salvador Allende, em novembro de
1970, a burocracia moscovita utilizou toda a sua influência para reforçar a
débil e reacionária burguesia chilena e desorientar a classe operária através
do aparato do Partido Comunista Chileno.
Se em 1970-71 os militares não puderam tomar o poder e
tiveram que esperar três anos para executar seus planos, podemos dizer
categoricamente que foi porque isto requeria a planificada e sistemática
desorientação política da classe operária, que o stalinismo levou a cabo antes
de criar as condições para o golpe. A arma ideológica principal dos stalinistas
chilenos para preparar as condições para o golpe foi a teoria Menchevique da
revolução "em duas etapas" e a concepção impotente da "via pacífica
e parlamentar para o socialismo" através de frentes populares que
desarmaram a classe operária e impediram sua mobilização no momento decisivo.
Sem avaliar as conseqüências da crise econômica e monetária
mundial que, em primeiro lugar, facilitaram a subida de Allende ao poder,
minimizando deliberadamente a reacionária natureza classista do Estado
capitalista e, ao mesmo tempo, exagerando e tergiversando a inclinação
reformista de um pequeno setor da burguesia chilena, o stalinismo chileno foi o
verdugo da revolução chilena.
A DERROTA NÃO FOI INEVITÁVEL
Não é possível defender a classe operária chilena sem
desmascarar as mentiras, as meias verdades e tergiversações totais a que os
stalinistas ingleses e europeus recorreram para encobrir as causas da derrota e
minimizar a magnitude de suas consequências.
Os stalinistas europeus deram uma grande contribuição ao
enganar os trabalhadores chilenos, apoiaram acriticamente todos os retrocessos
reformistas de Allende e agora tentam apresentar os acontecimentos do Chile como
trágicos, porém, historicamente inevitáveis. A última coisa que estes
burocratas reformistas desejam é uma análise sincera das causas da derrota.
O medo e o desprezo dos stalinistas pela classe operária são
tão grandes que não se atrevem a fazer a mais superficial autocrítica de sua
política. Ao contrário, a derrota chilena os impulsiona a continuar "a via
pacífica" mais entusiasticamente...
Cada fase da catástrofe chilena esteve determinada pela
crise de direção da classe operária e pelo desastroso programa do stalinismo e
da Social Democracia chilena. Esse programa se expressava na sua rotunda
negativa de expropriar os capitalistas chilenos e em sua completa prostração
diante do Estado capitalista, disfarçada como defesa dos "100 anos de
democracia parlamentar no Chile"...
As lições do Chile são universais e podem ser aplicadas com
grande pertinência em países como Itália e França, onde o stalinismo domina o
movimento operário e utiliza sua reacionária doutrina de "co-existência
pacífica" e de "democracia popular" para apaziguar as massas e
permitir que o fascismo e o estado capitalista preparem seus ataques.
O aparato de repressão, "as forças armadas", como
Engels definiu a máquina estatal, cresce enormemente, atinge um tamanho
exorbitante e o ataque contra os direitos democráticos elementares converte-se
em uma característica onipresente do governo capitalista. Se a classe operária
não consegue criar um partido revolucionário para derrubar o Estado
capitalista, então a transição ao fascismo e ao bonapartismo é inevitável.
Estas são as lições da Alemanha, Itália e Espanha nos anos
30... que Allende e os stalinistas rejeitaram constantemente.
A FUNÇÃO DO EXÉRCITO
Nenhum regime popular poderia coexistir com as forças
armadas chilenas, as quais estão dirigidas pelos representantes mais
reacionários dos capitalistas e dos latifundiários. Cada um de seus líderes foi
adestrado pela CIA como reacionário profissional.
Em vez de dissolver o congresso, o senado e as forças
armadas e criar em seu lugar uma milícia popular baseada nos comitês de
operários e camponeses pobres, os stalinistas chilenos foram os principais
defensores da "lei e da ordem" burguesa através da Frente Popular.
Em um recente seminário organizado pela revista World
Marxist Review, o porta-voz dos stalinistas chilenos, Banchero, declarou
abertamente a atitude de seu partido para o Estado: "Uma característica
inequívoca dos processos revolucionários no Chile é que começaram e continuam
dentro do marco das instituições burguesas do passado... no Chile, onde está em
curso uma revolução democrática popular antiimperialista, antimonopolista e
antifeudal, mantemos essencialmente a velha máquina estatal. As repartições do
governo estão dirigidas por velhos oficiais... A administração exerce suas
funções sob a tutela e controle do governo popular.
As forças armadas conservam seu estatuto de instituição
profissional, não fazem parte do debate político e se submetem ao poder civil
constituído legalmente. Foram desenvolvidos laços de cooperação e respeito
mútuo entre o exército e a classe operária em nome de converter o Chile em um
país democrático, livre e desenvolvido.
Os elementos ultra-esquerdistas exigem que o socialismo seja
'introduzido' imediatamente. Mas defendemos que a classe operária de todas as
formas chegará ao poder completo gradualmente. Isto coincidirá com a nossa
obtenção do controle da máquina estatal e então começaremos a transformá-la no
interesse do futuro desenvolvimento da revolução".
O britânico Idris Cox, que precedeu a Bachero, também
reverenciou a "via pacífica"... Pablo Neruda, o poeta e embaixador do
Chile em Paris, resumiu a apologia de Cox: "Quando nos referimos ao
Exército, o amamos. É o povo uniformizado..."
Os verdadeiros autores desta estratégia reformista não serão
encontrados na Inglaterra ou no Chile, mas em Moscou... Durante várias
gerações, tem sido uma tradição dos estados latino-americanos, e inclusive de
algumas seções stalinistas, tratar o exército com ódio e desconfiança, mas esta
atitude entra em conflito com a política da burocracia da União Soviética, a
qual reconhece e comercia com qualquer ditador militar, seja Franco na Espanha,
Papadopulos na Grécia ou Lol Nol no Camboja. Por isso, num passado recente, os
teóricos soviéticos estiveram ocupados treinando seus colegas latino-americanos
para que colaborassem com o exército.
Da mesma forma, é necessário recordar que Stalin, em 1920,
instruiu os comunistas chineses para que se submetessem ao exército Kuomitang
de Chiang Kai-shek porque este era moderno, progressista e, inclusive,
revolucionário. Esta teoria burocrática conduziu diretamente à maior matança de
comunistas jamais vista na China — o Massacre de Xangai.
CAPITULAÇÃO DIANTE DA DIREITA
No Chile, esta questão tinha um significado adicional devido
ao fato de que o Congresso e o Senado eram dominados pela direita, pelo Partido
Democrata Cristão e o Partido Nacionalista que estavam decididos a derrubar
Allende.
Os Democratas-cristãos, dirigidos por Eduardo Frei,
candidato apoiado pela CIA, utilizou ao máximo a fraudulenta legitimidade que
lhe foi dada contra o Congresso e o Senado presididos por Allende para deter e
obstruir sua legislação reformista e, ao mesmo tempo, preparar um plano de ataque.
Os aliados principais deste plano da direita foram os stalinistas que apoiaram
incondicionalmente a consistente negativa de Allende de formar uma milícia
operária. No auge da crise do governo, em setembro de 1972, Allende deixou
clara sua determinação de acabar com a oposição de extrema esquerda a suas
reformas fabianas, rechaçando expressamente a idéia de uma milícia popular.
"Não haverá outras forças armadas além das estipuladas
pela Constituição. Quer dizer, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.
Eliminarei qualquer outra que apareça".
Na escala da história, as exíguas reformas de Allende, que
criaram grandes esperanças nos trabalhadores, nos camponeses e na classe média,
pesam menos que a traição dessas aspirações que foi levada a cabo através de um
respeito forçado à legalidade constitucional.
Assim, os reacionários na oposição puderam articular seus
planos mais efetivamente com os "gorilas" do Exército, os credores
internacionais e os monopólios expropriados. Usando sua maioria constitucional nas
duas câmaras e aproveitando-se da crescente desilusão das massas diante da
incapacidade de Allende em conter a inflação, a oposição colocou em prática a
primeira parte de seu plano: forçou Allende a demitir os ministros radicais e
substituí-los por oficiais.
Em junho de 1972, a situação estava mais tensa e as
conversações secretas entre o governo e a oposição produziram outra crise na
Câmara, quando Allende demitiu seu Ministro da Economia esquerdista, Pedro
Vuskovic, e abandonou os planos de nacionalização. Isto previsivelmente obteve
todo o apoio dos stalinistas que, da mesma forma que na Espanha em 1938, se
converteram na extrema direita da coalizão. Os stalinistas acusaram Vuskovic de
"destruir a confiança dos capitalistas". Ao mesmo tempo foram partidários
de um "diálogo" com os Democratas Cristãos e, em vez da
nacionalização, aceitaram o suspeito programa da oposição para a
"participação operária".
Em agosto de 1972, a "via pacífica" sofreu um
golpe repentino quando os camelôs se enfrentaram com a polícia em Santiago. Os
stalinistas usaram isto imediatamente como pretexto para exigir que os grupos
de extrema esquerda como o MIR no Sul fossem proscritos, com o ridículo
pretexto de que as ações dos grupos de esquerda "criariam as condições para
a intervenção militar".
A enorme hostilidade dos stalinistas para qualquer grupo da
esquerda que não aceitasse o programa de Allende teve uma expressão bestial em
agosto de 1972, quando membros stalinistas da polícia atacaram um escritório do
MIR (esquerdista) nas proximidades de Santiago, matando cinco camponeses.
No fim de 1972, a reação estava preparada para sua segunda
fase. A primeira operação foi a greve dos proprietários de caminhões no Sul
contra a nacionalização. Em quatro semanas, Allende não só capitulou à reação,
como também aceitou a introdução de três generais em sua Câmara e, pela segunda
vez, demitiu outro Ministro do Interior. A nomeação mais destacada foi a do
general Morio Prats, chefe das forças armadas e notável reacionário anticlasse
operária. O Ministro do Interior, Del Canto, foi expulso porque permitiu que os
trabalhadores "ocupassem ilegalmente" indústrias privadas. A guinada
à direita era inexorável.
Isto não foi só um sinal de vitória para os reacionários,
mas um avanço significativo para os stalinistas, que lutaram todo o tempo
contra a ocupação de fábricas e a desapropriação de terras e se opuseram
implacavelmente a qualquer luta que não estivesse controlada por eles ou por
Allende.
A INSOLÚVEL CRISE ECONÔMICA
Detrás das crescentes intrigas da oposição, a arrogância dos
generais, as sistemáticas vacilações de Allende e a capitulação dos stalinistas
durante 1972-73, jazia a insolúvel crise do capitalismo chileno e mundial.
Quando Allende subiu ao poder, o Chile agonizava em uma grande
crise econômica e financeira, a qual se aprofundou consideravelmente desde
então. As reservas do Banco Central baixaram de $ 500 para $ 280 milhões e em
abril de 1972 calculava-se que não havia mais de $ 60 milhões. Ao mesmo tempo,
a dívida externa excedia os 3 bilhões, cuja maior parte estava sob o controle
dos bancos centrais europeus.
O compromisso de Allende e dos stalinistas com os credores
internacionais forneceu o estímulo à reação nativa para dar mais ímpeto à luta
para impedir a nacionalização e preparar-se abertamente para a
contra-revolução.
As manifestações de operários e estudantes contra a direita
foram censuradas pelos stalinistas, ao passo que Allende se ocupava de elogiar
os odiados carabineiros, a elite da polícia usada para atacar os trabalhadores
e ocupantes ilegais de prédios.
As palavras de Allende expressam claramente a perplexidade —
e também a impotência — do doutor pequeno-burguês perante a máquina do estado
capitalista e sua completa falta de confiança na classe operária.
"O lema dos carabineiros é 'Ordem e Pátria'. Ordem,
baseada na autoridade moral, cumprindo corretamente os deveres, que de nenhum
modo supõe a negação da hierarquia. Com efeito, vocês têm um sentido de
disciplina social e o uso da força pública" (Workers Press, 11 de maio de
1972). Foi precisamente este "sentido de disciplina e hierarquia" que
conduziu o presidente da guarda de carabineiros a render-se quando aconteceu o
golpe militar.
Em setembro de 1972, Allende descartou qualquer expectativa
de golpe militar: "Creio que o meu governo é a melhor garantia para a paz.
Aqui há eleições e liberdade. Noventa por cento dos chilenos não querem um
confronto armado".
Não obstante, os outros dez por cento não compartilhavam com
as ilusões stalinistas de Allende. Novos grupos, como a frente semifascista
"Pátria e Liberdade", começaram a armar-se abertamente contra o
regime, enquanto os latifundiários no Sul formavam exércitos privados para
impor "justiça" sobre os camponeses.
Para 1973, a política de "moderação e reconciliação"
dos stalinistas havia desiludido os trabalhadores da indústria e, pela primeira
vez, os mineiros do cobre começaram a fazer greves por aumento de salário. Isto
foi um sinal importante da crise, mas sob recomendação dos ministros stalinistas,
Allende atacou a classe operária do modo mais depravado.
Ao retornar de Moscou, em janeiro de 1973, Allende atacou os
mineiros do cobre em greve, taxando-os como "verdadeiros banqueiros
monopolistas que exigem dinheiro para seus bolsos sem nenhuma consideração com
a situação econômica do país".
No mesmo discurso, Allende revelou que a dívida externa
havia aumentado em dois anos de $ 3 bilhões para $ 4 bilhões e admitiu, além
disso, que o parlamento deveria dissolver-se de imediato. Este foi o preço da
"via pacífica".
Aqui, os stalinistas também mostraram sua mão. Quando os
mineiros da grande mina de cobre El Teniente, que foi nacionalizada, entraram
em greve por aumento salarial durante 70 dias, os stalinistas se opuseram às
propostas de Allende como "vacilação" e "completamente
inadmissíveis" e incentivaram o governo a usar canhões de água e gases
lacrimogêneo contra os mineiros. A província de O'Higgins — a área em greve —
foi colocada sob controle militar.
Ao mesmo tempo, Allende propôs trazer de novo os generais
demitidos de seus postos em março de 1973. O propósito desta ação estava claro:
Allende e os stalinistas queriam utilizar o exército contra a classe operária,
inclusive quando os dirigentes do partido estavam convencidos de que a oposição
estava preparando o golpe para agosto ou setembro!
Em junho de 1973, a direita fez sua primeira tentativa de
sublevação depois da greve do cobre. Esta tentativa do Segundo Regimento Armado
falhou, mas demonstrou a vulnerabilidade do regime a um golpe militar.
Este ataque estimulou a classe operária a entrar em ação, a
ocupar fábricas e a fortalecer as assembleias de trabalhadores que estavam
brotando por todas partes entre outubro e novembro de 1972.
A reação do líder chileno, Luis Corvalán, ao golpe fracassado
de 29 de junho atestou o pânico destes traidores quando viram que o futuro do
governo de Allende estava predestinado ao fracasso. A complacência e a euforia
desapareceram, mas em troca pairava uma paralisia de terror perante o Exército:
"A sublevação foi contida rapidamente graças às Forças Armadas e à
polícia... Continuamos apoiando o caráter absolutamente profissional das
instituições armadas. Seus inimigos não estão no povo, mas no campo
reacionário" (Marxismo Today, setembro de 1973).
Inclusive agora, apesar de tardiamente, a situação poderia
ter mudado com uma liderança decidida e categórica... No entanto, os
stalinistas chilenos seguiram um curso que não era somente falso, senão pior
ainda, contraditório. Segundo Corvalán escreveu: "A consigna patriótica e
revolucionária deve ser: Não à guerra civil! Não ao fascismo". Porém , o
fascismo é guerra civil contra os trabalhadores e o sistema capitalista traz em
suas entranhas o grande perigo de guerra civil contra a classe operária.
Renunciando à guerra civil e deixando a luta nas mãos dos reacionários oficiais
burgueses, o stalinismo chileno facilitou e acelerou a derrota dos
trabalhadores.
O presidente anterior, Frei, chamou abertamente a atacar as
"milícias operárias" que estavam se formando nas fábricas. Diante
desta situação, só uma ação determinada do governo, armando os operários,
dissolvendo o exército, colocando toda a classe operária em alerta e
preparando-a para a luta, teria prevenido-os e abortado o golpe. O governo e os
stalinistas fizeram o contrário.
Durante a crise de outubro de 1972, foi reativada uma
"lei de controle de armas" para impedir o rearmamento dos
trabalhadores. Na marinha e no exército, os oficiais direitistas se
aproveitaram da apatia, passividade e indiferença para doutrinar as tropas e
prepará-las para a insurreição. Os fervorosos chamados ao exército de Allende
só serviram para aumentar a determinação dos generais em terminar rápida e
implacavelmente com a experiência da "via pacífica".
O ataque final ao palácio presidencial de 11 de setembro foi
a culminação de um plano concebido graças ao consentimento do governo e do
Partido Comunista. Da mesma forma que Hitler e Franco, o General Pinochet
venceu pela ausência de seu adversário, graças à traição do stalinismo.
A PEQUENA BURGUESIA E A REAÇÃO
Uma pergunta final deve ser dirigida aos stalinistas: Por
que nenhum líder se atreve a responder as perguntas vitais que conduziram à
derrota? Por que a classe média, e com ela os soldados rasos, se rebelaram tão
violentamente contra o regime? Se a "via pacífica" e o "respeito
à legalidade" são a única garantia para se ganhar a classe média, por que
falharam tão desastrosamente no Chile?
Argumentar que esta guinada à direita da pequena burguesia
se deve tão somente às intrigas da CIA ou à tendência da classe média de apoiar
os regimes militares, como os stalinistas fazem entender, é injuriar o marxismo
e ocultar a traição da Frente Popular. Segundo Trotsky escreveu em "Aonde
vai a França?" (1934): "A pequena burguesia se distingue por sua
dependência econômica e sua heterogeneidade social (...), não tem política
própria. Sempre oscila entre os capitalistas e os trabalhadores. Sua camada
alta a empurra para a direita, enquanto sua camada baixa, oprimida e explorada,
sob certas condições, pode girar repentinamente para a esquerda". Trotsky
continua, afirmando que em períodos de crise aguda e na ausência de uma direção
revolucionária, "a pequena burguesia começa a perder a paciência. Adota
uma atitude mais hostil em relação a sua própria camada alta. Convence-se da
bancarrota e da traição de seus dirigentes políticos... É precisamente esta
desilusão da pequena burguesia, sua impaciência, seu desespero que o fascismo
explora... Os fascistas mostram franqueza, saem à rua, atacam a polícia e
tratam de expulsar os Parlamentares pela força. Isto impressiona a
desesperançada pequena burguesia".
As palavras de Trotsky descrevem exatamente a atitude da
pequena burguesia sob o governo de Allende... A pequena burguesia foi a
primeira vítima da coalizão política que tentou adormecer a classe operária com
subsídios, enquanto prometia um aumento da produtividade aos capitalistas
industriais, detendo drasticamente a nacionalização e negando-se a rechaçar o
grande peso da dívida externa contraída pelo governo anterior pró-EUA de Frei.
A queda média do poder aquisitivo e a diminuição do consumo
afetou principalmente as camadas baixas da pequena burguesia... Os grandes
capitalistas queriam uma grande desvalorização do Escudo ou um completo
congelamento de salários... Por outro lado, os trabalhadores queriam mais
nacionalização, controle operário e acabar com a fraude parlamentar.
Allende e os stalisnistas rechaçaram ambas alternativas e se
viram atrapalhados com suas próprias contradições. Era só uma questão de tempo
antes que os imperialistas e a junta atacassem...
CONSTRUIR O PARTIDO REVOLUCIONÁRIO
Para defender a classe operária chilena é necessário
assimilar as lições vitais deste período e construir uma nova direção
revolucionária baseada nos princípios de Lenin e Trotsky.
Sugerimos este parágrafo de Lênin como epitáfio do governo
Allende "O proletariado não pode vencer se não atrai a maioria da
população para o seu lado. Mas limitar a vitória a uma maioria de votos nas
eleições controladas pela burguesia ou condicioná-la a isto é uma estupidez
exorbitante ou um engano absoluto para os trabalhadores. Para ganhar a maioria
da população para seu lado, o proletariado deve, em primeiro lugar, derrotar a
burguesia e tomar o poder. Segundo, deve estabelecer o poder dos sovietes e
acabar de destruir o velho aparato do Estado, o que debilita o domínio,
prestígio e influência da burguesia e da pequena burguesia acomodada sobre a
classe operária não proletária. Terceiro, o proletariado deve destruir
completamente a influência da burguesia e da pequena burguesia sobre as massas
não proletárias e satisfazer suas necessidades econômicas de uma maneira
revolucionária as custas dos exploradores."
Se o stalinismo desempenhou o papel principal na derrota
chilena, é impossível analisá-la sem contar com o papel dos centristas e
revisionistas que foram, querendo ou sem querer, cúmplices do stalinismo.
Os centristas do MIR (Movimiento de Izquerda
Revolucionária), que contavam com o apoio considerável entre os camponeses
sem-terra do Sul, não adotaram uma atitude principista em relação a Allende e
geraram grande confusão entre os camponeses. Sua política de "apoio
crítico" a Allende, na prática, significou capitulação perante a Frente
Popular. Como o POUM na Catalunha, na Guerra Civil Espanhola, este grupo
retirou sua oposição a Allende nas eleições ao Congresso em março de 1973,
precisamente quando um audacioso desafio aos stalinistas, ao Estado capitalista
e uma chamado para formar um governo de trabalhadores e camponeses havia
atraído a maioria dos trabalhadores e camponeses pobres.
Os revisionistas do Secretariado Unificado (SU)
desempenharam um papel ainda mais criminoso. The Militant (o jornal do
Socialist Workers Party dos EUA), lamentava-se: "Não há, no entanto, um
partido que possa tomar este exemplo (controle popular da produção) e
extendê-lo através dos cordões (assembléias operárias) e através do país"
(4/9/1973).
Por que o SWP não disse a seus leitores o que aconteceu com
o POR (Partido Operário Revolucionário do Chile), a seção do SU, que abandonou
o CIQI e se uniu ao SU, apoiando as teorias revisionistas de Mandel e Hansen,
as teorias que liquidaram o trotskismo na América Latina e substituíram-no por
idéias e métodos de Guevara e Castro? Por que o SWP não lembra que ele mesmo
foi o principal protagonista dessa linha política?
Não é fato que o partido trotskista não foi destruído no
Chile pelo stalinismo ou pela Junta Militar, mas pela aplicação consciente da
teoria revisionista de que as revoluções podem acontecer com êxito sem
construir um partido marxista?
De todas as formas, a derrota chilena não mudará nada no
Secretariado revisionista. Em vez de aprender as lições, estes acontecimentos
aproxima-os ainda mais da burocracia, da burguesia nacional e do imperialismo.
Por isto, os revisionistas do Grupo Marxista Internacional na Inglaterra, por
exemplo, não têm dúvida de unir-se com os stalinistas campeões da Frente
Popular na manifestação contra a junta chilena... e pela Frente Popular no
Chile.
Certamente, o revisionismo alcançou um novo estágio de
degeneração. Marchando com a Frente Popular, apoiou as maquinações
contra-revolucionárias do stalinismo e da burguesia. Lutar contra o stalinismo
e o castrismo é destruir politicamente o revisionismo.
O CIQI chama a máxima solidariedade com a classe operária
internacional para boicotar o comércio marítimo do Chile, exigir a liberação de
todos os prisioneiros políticos e que cessem as execuções pela Junta. Ao mesmo
tempo, exigimos do governo da URSS e dos regimes da Europa Oriental que rompam
as relações diplomáticas com a Junta chilena e que promovam toda a ajuda
possível aos trabalhadores combatentes do Chile.
• ABAIXO A JUNTA MILITAR DO CHILE!
• ABAIXO A FRENTE POPULAR!
• ABAIXO O STALINISMO!
• VIVA OS TRABALHADORES CHILENOS!
• PELA CONSTRUÇÃO DE SEÇÕES DO COMITÊ INTERNACIONAL DA QUARTA
INTERNACIONAL!!
Declaração do CI-QI.
18 de setembro de 1973.