terça-feira, 25 de setembro de 2018

26 ANOS DO “FORA COLLOR”: IMPEACHMENT DO FALSO “CAÇADOR DE MARAJÁS” ABRE CAMINHO PARA UM GOVERNO DE “UNIÃO NACIONAL” QUE INICIA A ERA NEOLIBERAL DAS GRANDES PRIVATIZAÇÕES


No final do mês de setembro de 1992, há exatos 26 anos, o Congresso Nacional votava o relatório da CPI do “PC Farias” que encaminhava a perda do mandato do então presidente da república Fernando Collor de Melo por crime de responsabilidade, era o início do fim para o alagoano conhecido como o “caçador de marajás”. A “histórica” sessão do Congresso, presidida pelo deputado gaúcho Ibsen Pinheiro (pouco tempo depois o próprio parlamentar peemedebista foi cassado pelos seus pares) teve um resultado acachapante a favor do “impeachment”, 441 votos sim e somente 38 contra, pela primeira vez a burguesia brasileira descartava um presidente eleito, pela via institucional, sem recorrer aos tradicionais golpes de estado comandados por milicos treinados pela CIA. As acusações que pesavam contra Collor foram concentradas contra seu tesoureiro de campanha, o lendário “PC Farias”, por ter recebido de “propina” de corrupção um automóvel Fiat Elba, uma verdadeira piada da vida real, chancelada como verídica por todos seus ex-apoiadores, como seu próprio irmão (Pedro) e a poderosa organização mafiosa Globo. Fiel politicamente até o fim ao amigo Collor somente o falecido ACM, que com uma fração de seu partido, o PFL, lhe brindou os 38 votos contrários a sua cassação. Mas, o “inferno astral” do primeiro presidente eleito após o fim do regime militar, começou mesmo no mesmo dia que assumiu o governo, em março de 1990, com um decreto de congelamento da poupança popular, Collor iniciava uma sinuosa trajetória de “rupturas” que poucos anos depois acabaram por deflagrar o movimento dos “Cara Pintadas”, considerado pelos revisionistas da LIT, como a “segunda revolução democrática no país” (a primeira teria sido a campanha das “Diretas Já”), na verdade mais uma manobra política das classes dominantes que granjeia o apoio das massas. Para compreender as razões da queda de Collor, de um ângulo marxista, será necessário retroceder um pouco mais na história e voltar ao final dos anos 80, precisamente no processo de esgotamento da chamada “Nova República” do biônico Sarney.

No ano de 1989, o Brasil se preparava para realizar o “sonho” das eleições diretas, após cinco anos de uma gestão estatal de profunda crise política, estamos nos referindo ao presidente Sarney que chega ao fim de seu mandato biônico, “eleito” pelo Colégio Eleitoral da ditadura, sem nenhum apoio popular. O oligarca maranhense, ex-presidente da ARENA (partido dos militares golpistas de 64), que assumiu o comando da “Nova República” por conta da estranha morte do governador mineiro Tancredo Neves, tinha na figura do então líder do PRN, Collor de Melo, seu principal adversário político no campo da burguesia. Como o isolado Sarney não tinha sequer um partido político para enfrentar as eleições de 89 (que eram exclusivamente para a presidência da república), rejeitado tanto pelo PMDB como pelo PFL, partidos da base de apoio do regime, resolveu impulsionar materialmente o minúsculo PCB, lançando a candidatura do deputado Roberto Freire, único candidato que não “batia” no “cachorro morto” Sarney. Em um quadro de completa crise dos partidos tradicionais da burguesia, o PMDB sob controle do decrépito Ulisses e o PFL nas mãos do esclerosado Aureliano Chaves, a possibilidade concreta do operário petista “radical” Lula ganhar as eleições presidenciais acionou o “alerta vermelho” da burguesia nacional, que de forma emergencial organizou às pressas a “alternativa” Collor, mesmo consciente dos riscos posteriores que esta opção política engendraria.

As eleições de 89 se iniciam desbloqueando um sentimento de revolta das massas com os cinco anos da falida “Nova República”, os atos-comícios de Lula logo se tornam multitudinais, superando inclusive os da campanha das “Diretas Já”. Acompanhando este fenômeno, o movimento operário assiste um colossal assenso de massas, a CUT protagoniza importantes greves nacionais, se consolidando como a central sindical do proletariado brasileiro. As candidaturas do PMDB, PFL e PTB naufragam eleitoralmente desde o início e Freire, o candidato do Sarney, não passa de um folclore do “comunismo” domesticado. A burguesia tenta conter a “avalanche” Lula com a aposta no populista Brizola do PDT, que não consegue chegar ao segundo turno, crivado pelo “caçador de marajás” e o “sapo barbudo” que a elite dominante não admitia engolir.

Não restando outro caminho à burguesia, orientada diretamente pelo imperialismo ianque, opera a maior fraude político eleitoral da história do país e empossa Collor como vitorioso das eleições presidenciais de 1989. O PT capitula vergonhosamente e desmobiliza suas bases sociais contra o escandaloso estelionato eleitoral, mesmo diante dos apelos do próprio Brizola que denuncia vigorosamente o roubo descarado sofrido pelo PT. Collor toma posse como um presidente a frente de um partido lumpen burguês (PRN) e sem base no Congresso Nacional. Logo de saída, a nova equipe econômica promove uma trapalhada para tentar conter a inflação, gerando uma profunda recessão no consumo, é o encerramento do curto namoro entre Collor e as oligarquias capitalistas que começaram a preparar antecipadamente sua saída do poder.

Com o surgimento das denúncias plantadas na mídia “murdochiana” que o braço direito de Collor, Paulo Cesar Farias, gostava de se dedicar a recolher pequenas “comissões” para seu “chefe”, ficou fácil montar um “teatro” político onde Collor era apontado como o presidente mais corrupto da história da República, logo ele o produto criado pela Globo como o “caçador de marajás”. Diante da “comoção nacional” contra a corrupção, os estudantes logo foram às ruas e sob o comando da UNE, presidida pelo picareta Lindberg Farias, deram vida ao movimento pretendido pela burguesia para retirar Collor do Planalto e começar a ofensiva neoliberal das privatizações, que exigiriam um novo presidente com forte legitimação social. Posto para fora o “ladrão de galinhas”, sob a aura de ter ocorrido uma verdadeira “revolução democrática” no Brasil, o establichment político organiza uma rápida transição com o governo de “união nacional” de Itamar, onde em um balão de ensaio se realiza a primeira grande privatização, a da CSN em Volta Redonda, sob o silêncio criminoso do PT.

Passados 26 anos do “Fora Collor” e as vésperas de uma eleição presidencial polarizada entre o PT e a direita, a esquerda reformista ainda insistem no “conto fabuloso” do resgate da democracia pelas mãos das instituições do regime político burguês. Defendem até hoje as instituições do Estado burguês como fórum legitimo “para o julgamento de governantes corruptos”. Teriam que responder porquê a cada “revolução democrática” que caracterizam ocorrer, sempre se sucedem gerências estatais ainda mais entreguistas e subordinadas ao capital imperialista. Como nos ensinou Marx há bem mais de um século, sabemos claramente que a melhor forma de dominação do capital se expressa pela via do regime democrático burguês e que a única e verdadeira revolução da classe operária é a socialista, onde as velhas instituições da república representativa são demolidas para dar lugar à democracia direta dos conselhos soviéticos.

O governo Collor que sucedeu a chamada “Nova República” comandada por Sarney, desta vez “eleito” pelo voto popular, não conseguiu sustentação política necessária no interior das classes dominantes exatamente por representar um setor lúmpen e marginal da burguesia, utilizado como alternativa de emergência diante da vitória eleitoral roubada de Lula em 89. O movimento “Fora Collor”, de composição majoritariamente juvenil, foi impulsionado diretamente pela famiglia Marinho que resolveu abandonar sua “criatura” quando esta tornou-se inútil e obsoleta diante das perspectivas que a economia mundial estava abrindo para o Brasil. A mobilização dos jovens do “Fora Collor”, levados às ruas pela Rede Globo, assumiu como eixo a luta “contra a corrupção” e pela “ética na política” em função das “pequenas comissões” cobradas pelo tesoureiro de Collor (PC Farias) a empresários que pretendessem realizar “negócios” com o Estado brasileiro. Galvanizando rapidamente nas ruas o ódio por um governo que confiscou a poupança da população, o “Fora Collor” serviu como instrumento para a burguesia nacional agilizar a troca de uma “gerência” capitalista arcaica por outra neoliberal “moderna” (no marco do mesmo regime político), capaz de realizar as privatizações que o capital financeiro exigia. O “Impeachment” de Collor, longe de representar o “resgate da cidadania” ou o “Brasil passado a limpo”, como pregam até hoje os reformistas de todos os calibres, expressou um movimento da própria burguesia para utilizar melhor seu “fundo estatal”, apeando do poder um governo de “ladrões de galinha” em benefício de “tubarões” da corrupção em um mundo recém globalizado no início da década de 90.