quinta-feira, 30 de maio de 2013


PC chileno resolve ingressar no futuro governo Bachelet (PS). Como Marx afirmou, a história se repete a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa!

Muito próximo de completarem-se os quarenta anos da tragédia do golpe militar Pinochetista, quando a classe operária foi vítima não só do chacal assassino, mas da estratégia reformista de “conquistar o socialismo pela via pacifica”, o Partido Comunista do Chile anunciou que apoiaria a candidatura do Partido Socialista, após uma reunião com ninguém menos do que a ex-presidente Michelle Bachelet que governou o país de 2006 a 2010 através da “Concertación”, uma coalizão de centro esquerda que engloba o Partido Socialista, a Democracia Cristã e o Partido pela Democracia contra o candidato apoiado pelo atual presidente direitista, Sebastião Piñera. Em pauta estava o apoio do PC a Bachelet nas primárias que ocorrerão no dia 30 de junho, as quais definirão quem será o candidato da “Concertación” que irá concorrer às eleições presidenciais de novembro. Evidentemente, a ex-presidente é a franca favorita para vencer as prévias, já que pesquisas colocam-na com altos índices de aceitação. Em troca os stalinistas chilenos, que não conseguiram abstrair as lições da grande derrota de 73, teriam garantida por Bachelet e sua coalizão a candidatura a deputada da dirigente estudantil Camila Vallejo, uma vez que ela “nos afirmou que nos lugares onde for e haver candidatos nossos, ela estaria com eles”, disse o dirigente do PC, Guillermo Teillier, e por isso “vamos trabalhar em conjunto para que nas primárias as pessoas que votarem sejam muito mais da oposição que da direita. Isto é, vamos partir com uma posição vencedora” (site Partido Comunista do Chile, 28/5). O regime da “Concertación” minou o país desde a década de 90, caracterizando-se por seu continuísmo à política pinochetista, seu monstruoso aparato repressivo e a manutenção da ordem econômica entreguista baseada na “abertura econômica” e no “livre comércio” que privatizou a saúde, o transporte e a educação a serviço do imperialismo ianque. Não foi à toa que em 2006 Bachelet enfrentou com dura repressão quase um milhão de jovens estudantes nas ruas que reivindicavam mais verbas para a educação e o fim das privatizações, nas mobilizações conhecidas como a “Revolta dos Pinguins”, a qual se uniram pequenos produtores, mineiros e povos mapuches contra o latifúndio e as multinacionais, que em razão das sabotagens da burocracia sindical e sem uma perspectiva revolucionária foram derrotadas. “Esquecendo-se” desta trajetória, o PC afirma que “há uma concordância entre Michele Bachelet e o Partido Comunista quanto a levar a frente uma reforma tributária que, sobretudo, permita financiar uma reforma na educação... impulsionar a mudança da Constituição... colocando abaixo o sistema eleitoral binominal e avançar na melhora da qualidade e serviço de saúde pública” (Idem). Como se um futuro governo da “Concertación” fosse reverter a política pró-imperialista durante os 20 anos que esteve a frente do Palácio de La Moneda...

A mídia “murdochiana” alinhada a Piñera já acusou Bachelet de ter dado uma “guinada à esquerda”, o que a ex-presidente tratou logo de desmentir demagogicamente: “Não houve nem um giro à direita nem à esquerda, senão um giro à cidadania” (Las Claves, 27/5), já que os cerca de 5% de votos que o PC com suas coligações arremata podem fazer a diferença em um eventual segundo turno. Nas eleições de 2009-2010, os “comunistas” (na coligação “Juntos Podemos Más” no primeiro turno tinham como candidato Jorge Arrate, ex-PS que rompeu com a Concertación) apoiaram no segundo turno com todo seu cretinismo o candidato de Bachelet e da Concertación, Eduardo Frei, contra o pinochetista bilionário Sebastian Piñera (bloco RN/Coalizão pela Mudança) que se saiu vitorioso. Os longos anos de colaboração de classes do PS e do PC, em razão da ausência de uma alternativa de direção revolucionária para as massas, abriram caminho para o pinochetismo reciclado de Piñera em face de ter mantido intactas suas bases políticas, o poder dos militares torturadores genocidas e, inclusive, a reacionária constituição de 1980, aprofundando de maneira combinada tudo isto o ataque sobre os trabalhadores com novas e antioperárias reformas neoliberais.

Vale lembrar que foi durante o governo Eduardo Frei que o Chile impulsionou o Tratado de Livre Comércio com os EUA, aumentando a dependência do país em relação às multinacionais. A água foi privatizada, abriu para empresas privadas o uso de rodovias e o mar territorial. Impôs uma dura reforma educacional privatista e fez o desemprego disparar de 7% para 10% da população. Frei nunca abriu qualquer negociação acerca das demandas das organizações de direitos humanos e dos familiares das vítimas da ditadura, ao mesmo tempo em que moveu todo aparato estatal para evitar que Pinochet fosse julgado em Londres por violações dos direitos humanos, em que pese a farsa judicial imperialista. Como resultado, o Chile em seu último governo do PS, nas mãos de Bachelet, é hoje um país que tem a maior renda per capita da América Latina, mas paradoxalmente em termos de desigualdade social coloca-se na quarta colocação, evidenciando um tremendo abismo social-econômico entre “ricos” e explorados típico de uma semicolônia tutelada pelo imperialismo ianque.

Nos últimos dias, como produto das imensas contradições sociais, o Chile tem sido palco de novas mobilizações estudantis em repúdio ao governo Piñera e pela gratuidade do ensino no país. Só para se ter uma pequena ideia, o Chile é o país que tem o sistema educacional como um dos mais caros e ineficientes do mundo por estar voltado exclusivamente aos tubarões do ensino privado: os estudantes cursam os quatro anos de universidade e depois são obrigados a pagá-la durante os dez anos seguintes! Como parte destes protestos, a Confederação dos Estudantes do Chile (Confech) marcou uma paralisação nacional para o dia 13 de junho. Contudo, por causa da completa integração das direções ao regime político, as manifestações têm como objetivo limitadíssimo desgastar o atual governo rumo a uma perspectiva eleitoral que abra caminho à “oposição” encabeçada por Bachelet e apoiada pelo PC. Como consequência dos governos do PDC e PS e a colaboração de classes do stalinismo, os trabalhadores foram atomizados e dispersos em suas lutas que não ultrapassam os limites sindicais de resistência à precarização e à superexploração. Não será apoiando Bachelet e a Concertación, dentro da institucionalidade burguesa, como almejam oportunisticamente os stalinistas, que a classe operária irá derrotar o atual regime neopinochetista de opressão às massas. Assim como no passado, a política frentepopulista é a responsável pelas maiores derrotas impostas à classe operária em nome da institucionalidade e da ordem burguesa. Por isso, está colocada para a vanguarda classista a superação deste quadro de conciliação de classes, denunciando que os partidos da “Concertación” e seus satélites apenas patrocinam ilusões no regime cívico-militar atual, apontando sua bússola para o norte da revolução socialista.