“Chacina da Lapa”: Há
trinta e sete anos os chacais da ditadura eliminaram o setor da direção do
PCdoB crítico à guerrilha Maoista do Araguaia
Seria uma reunião de
grande relevância para os rumos políticos do Comitê Central do PCdoB, no dia 16
de dezembro de 1976, há exatos trinta e sete anos, mas as conclusões do
encontro clandestino (o mais representativo realizado após o encerramento das
atividades da guerrilha do Araguaia) não puderam chegar ao fim devido à brutal
ação policial fascista do regime militar contra o que restava da direção
partido após a derrota sofrida no norte do país. No centro da pauta do CC
estava o debate acerca do balanço político da ação militar guerrilheira do
partido, realizada sob orientação ideológica do Partido Comunista Chinês. Não
por coincidência a fração dirigente que defendia o “grande acerto” da tática
Maoista encontrava-se “refugiada” justamente em Pequim. Estamos falando
fundamentalmente de João Amazonas e Renato Rabelo (atual presidente do PCdoB),
que juntos se recusavam a fazer qualquer movimento de autocrítica em relação ao
Araguaia. Do outro lado geográfico e político estavam Pedro Pomar e Angelo Arroyo,
este último comandante e sobrevivente da guerrilha e que vivenciou a morte do
dirigente histórico Maurício Grabois no desigual combate militar. Pomar já
tinha manifestado para a militância partidária suas diferenças de avaliação
política com Amazonas, secretário geral do partido, gerando um profundo “mal-estar”
no interior da direção stalinista que não tolerava dissidências. Pomar teria
sido chamado para uma viagem de “advertência” a Albânia, não efetivada em
função do grave estado de saúde em que se encontrava sua companheira. Como
permaneceu no Brasil, Pomar resolveu levar adiante suas posições e dar a
batalha de suas ideias no âmbito do CC do partido. Iniciada a histórica reunião
do PCdoB no dia 11 de dezembro, na rua Pio XI do bairro da Lapa em São Paulo,
terminaria sob o assalto covarde das forças de repressão do regime, levando a
morte de Pomar, Arroyo e Drummond, outros cinco dirigentes foram presos e
torturados (entre eles Haroldo Lima e Aldo Arantes) e dois não foram presos.
Jover Telles e José Novaes saíram da “casa aparelho” em dupla e foram os únicos
a escapar do cerco policial. Algum tempo depois a direção do PCdoB imputaria a
responsabilidade criminosa do ataque terrorista ao partido na “conta” de Jover
Telles denunciado como um “infiltrado” no CC. Segundo esta versão, sustentada
por Amazonas, Telles teria sido capturado pelo DOPS dias antes da “Chacina” e
negociado sua liberdade em troca da delação do partido. Mas o estranho é que
somente em 1983, no sexto congresso do PCdoB, se “oficializaria” a expulsão
definitiva do “traidor”, ou seja, quase sete anos após os gravíssimos
acontecimentos da Lapa. Seguindo a trilha das “denúncias” de Amazonas contra
seus opositores internos nos deparamos com outra acusação, desta vez o alvo
seria o líder camponês José Novaes, que ao contrário de Telles e Wladimir Pomar
(filho de Pedro e preso na Lapa), resolveu organizar uma dissidência no seio do
PCdoB. Diante das circunstancias criadas (e nunca totalmente esclarecidas) em
torno da militância de Telles, este decide abandonar a política, Wladimir toma
o rumo da socialdemocracia ingressando no PT em 1980. Coube a Novaes, reunindo
outros companheiros do PCdoB que estavam em processo de ruptura com o
stalisnismo (Ozeas Duarte, Genoino Neto e Jorge Paiva), fundar uma nova
organização comunista, que viria a se tornar o PRC em 1984. Mas se não foram os
“camaleões” (alcunha atribuída por Renato Rabelo aos dissidentes do PCdoB) os
delatores do aparelho da Lapa, a quem mais interessaria a morte de Pedro Pomar
e Arroyo? Quem teria de fato “vazado” para os genocidas a informação da reunião
que poderia ter mudado a linha Maoista do PCdoB?
A primeira questão que deve ser respondida é porque somente ao final da reunião do CC (que durou vários dias) a polícia da ditadura decidiu agir, pondo em risco o próprio sucesso da operação criminosa. Registros do DOPS revelaram que os agentes do regime militar sabiam da reunião no aparelho da Lapa com pelo menos dez dias de antecedência, mas só intervieram após o CC do PCdoB se inclinar, por uma pequena margem de maioria, na autocrítica da guerrilha do Araguaia. Na incursão da casa da rua Pio XI, a policia militar fuzilou sumariamente Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, o jovem militante Drummond morreu posteriormente em uma tentativa de fuga na sede do próprio DOPS. Os outros membros do CC foram presos e torturados, mas mantidos vivos. Com a queda do CC, resistindo politicamente no Brasil, somente restou ao PCdoB a direção instalada no exílio, e esta era completamente favorável à desconsideração das resoluções programáticas aprovadas na Lapa naquele trágico dezembro de 76. Amazonas logo reagrupou o “velho” Diógenes Arruda (ex-tesoureiro do Partidão), exilado em Portugal, e junto a Dynéas Aguiar e Rabelo consolidou uma maioria alinhada com o PTA da Albânia.
Com a chegada da “anistia”
política ao país em 1979, a direção nacional do PCdoB se reorganiza, sob as
bases políticas da recém ruptura do partido com o Maoismo, agora considerado
como uma das vertentes do revisionismo, pondo fim à defesa da guerrilha
camponesa. Este fato confunde os dissidentes da pseudomaioria “Amazonista” que
não conseguem se unificar, mesmo tendo ganho a última conferência partidária.
Neste período as suspeitas que recaiam sobre o próprio Amazonas, pela delação
da Lapa, se dissiparam em função da “quebra” política de Telles e da própria
criação da corrente estudantil “Caminhando”, impulsionada nacionalmente por Genoino
Neto e Adelmo Genro. O crescimento organizativo da tendência “Caminhando” foi
vertiginoso, a ponto de chegarem a presidência da UNE na figura do baiano Ruy
Cezar, recentemente falecido. Era a “gota d'água” que faltava para o PCdoB
incluir Genoino na lista de “traidores”, ao lado de Novaes e Telles, só que
neste caso a acusação de Amazonas se relacionaria à guerrilha do Araguaia, onde
o ex-presidente do DCE da UFC foi preso. Com a ofensiva do PCdoB sobre os “camaleões”,
o ex-militante do partido que teria toda a autoridade moral para elucidar o
verdadeiro festival de calúnias stalinistas, seria Wladimir Pomar. Filho do
grande quadro teórico Pedro Pomar, assassinado na Chacina da Lapa, Wladimir
esteve presente naquela reunião do CC, também na condição de dirigente do
partido. Mas o filho não tinha a mesma estatura ideológica do pai Pedro, e optou
por calar-se diante da intensa polêmica aberta no marco da esquerda comunista.
Wladimir seguiu o “tranquilo” o curso de assessor “intelectual” da burocracia
sindical Lulista, o que lhe rende até hoje muitas vantagens financeiras
(atualmente é responsável pelo comércio exterior com a China).
Os “Ziguezagues”
programáticos do PCdoB ao longo de sua história o descredenciaram totalmente
perante a vanguarda revolucionária mundial, o respeito e admiração adquiridos
com a morte heroica de seus militantes durante a Guerrilha do Araguaia e nos
anos de “chumbo” da ditadura viraram pó quando o partido deliberou estabelecer
as alianças políticas conservadoras com Tancredo, Sarney e agora a neoliberal
Dilma. Sobreviventes da Chacina da Lapa, como Haroldo Lima (ex-ANP) chegam a
defender a entrega do petróleo nacional para as transnacionais de energia e
combustíveis. A plataforma estratégica da “luta armada” dos anos 70 foi logo
substituída pela apologia da democracia burguesa como valor universal, levando
o PCdoB para a vala comum da socialdemocracia, disfarçada de “neodesenvolvimentista”.
Os mártires da “Chacina da Lapa” desgraçadamente não têm herdeiros políticos,
nem no campo do decomposto PCdoB, nem tampouco no terreno dos “dissidentes” que
acabaram por dissolver organicamente o PRC na “gosma” ideológica do PT. Caberá
a uma nova geração de combatentes classistas, forjada na têmpera revolucionária
de um novo poder, honrar a memória e a luta de todos os militantes da esquerda
comunista que caíram sob o tacão assassino da ditadura do capital.