terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

“MORRER PARA VIVER”: 55 ANOS DO ASSASSINATO DE CAMILO TORRES, O “PADRE GUERRILHEIRO” QUE DEFENDEU A LUTA REVOLUCIONÁRIA CONTRA O CAPITALISMO COMO GENUÍNA “OPÇÃO PELOS POBRES”!

Chegamos aos 55 anos do assassinato de Camilo Torres Restrepo neste 15 de fevereiro de 2021. Camilo foi o sacerdote católico colombiano, pioneiro da Teologia da Libertação, co-fundador da primeira Faculdade de Sociologia da América Latina e membro do grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (ELN). Para ele, o cristianismo supunha a criação de uma sociedade justa e igualitária, socialista em suas palavras e atos de ação revolucionária!

Camilo Torres nasceu em 3 de fevereiro de 1929, no seio da burguesia liberal de Bogotá, capital colombiana. Como estudante de Teologia, passou a se dedicar à análise da pobreza e injustiça social. Já como sacerdote, decidiu dedicar seus estudos e sua vida à transformação desta realidade. Camilo foi ordenado sacerdote em 1954. 

Em seguida, viajou a Bélgica para estudar Sociologia na Universidade de Lovaina. Durante sua estadia na Europa, travou contato com a Democracia Cristã, com o movimento sindical cristão e com grupos de resistência argelina em Paris, fatores que o levaram a se aproximar da causa dos oprimidos. Na França, teve contato com o padre Abbé Pierre. Fundou, com um grupo de estudantes colombianos da universidade, o ECISE (Equipe Colombiana de Investigação Socioeconômica) e o Movimento Universitário de Promoção Comunal (MUNIPROC), onde desenvolveu trabalhos de investigação e de ação social em bairros populares.

Em 1959, retornou a Bogotá e foi nomeado capelão da Universidade Nacional da Colômbia. Foi um dos pioneiros da chamadas “opção preferencial pelos pobres” na América Latina, praticada por ele como uma luta aberta contra o capitalismo. Isso resultou na elaboração de um estudo sobre "A proletarização de Bogotá", que foi uma obra pioneira na sociologia urbana da América Latina.

Em 1960 na Universidade Nacional, junto a Orlando Fals Borda, fundou a Faculdade de Sociologia, à que esteve vinculado como professor, até que o Cardeal Concha Córdoba não aprovou seu trabalho e destituiu-o como capelão, e das atividades acadêmicas da Universidade. Pelo que em 1965 abandonou o sacerdócio e dedicou-se completamente à atividade política revolucionária. Nessa época Camilo ajudou a fundar as "Juntas de Ação Comunitária", que hoje são um movimento efetivo da organização e administração cidadãs em bairros populares em toda a Colômbia.

Foi co-fundador da primeira faculdade de Sociologia da Colômbia (1960) e da Frente do Povo Unido (1965), um movimento de inspiração marxista, antes de juntar ao Exército de Libertação Nacional (ELN). Após constituir a Frente Unida do Povo, organização que convocou importantes manifestações e atos, contatou o Exército de Liberação Nacional com quem acordou a continuação da agitação política nas cidades, e seu posterior ingresso na organização. Nesse contexto, após as grandes manifestações contra o governo, lideradas pela Frente Unida, passou a ser ameaçado pelo Exército, acusado de ser "um comunista subversivo perigoso para o país". 

Decidiu se unir ao Exército de Libertação Nacional, na guerrilha rural, abandonando a frente urbana, seu cargo na universidade e a defesa de uma via pacífica para a resolução do conflito colombiano. Esse momento é relembrado por Nicolás Rodríguez Bautista, o Gabino, primeiro-comandante do ELN. "Camilo consultou o Estado-Maior do ELN sobre o que ele deveria fazer e os comandantes decidiram que ele deveria juntar-se à guerrilha rural para evitar o seu assassinato. Estavam conscientes de que este passo iria afetar o desenvolvimento do movimento de massas, mas estes eram os custos que tinham de ser pagos para preservar a sua vida", recorda. 

Dedicado a aprender o "ABC da luta da guerrilha", nas palavras de Gabino, Camilo seria assassinado quatro meses depois em uma emboscada ao Exército. Depois de um curto período de treinamento, em 15 de fevereiro de 1966, Camilo Torres, o padre guerrilheiro, foi morto em combate com a força pública, em Patio Cemento, Santander. Camilo morreu no dia do seu batismo de fogo em um confronto com as forças do governo. O seu corpo foi tomado pelo exército e enterrado em um lugar secreto, a fim de evitar uma celebração heroica dos restos mortais do padre em armas, mas como diz a música de Victor Jara, ele “morre para viver” na luta revolucionária dos trabalhadores.

Hoje, o alvo preferencial da cúria romana tem sido nas últimas duas décadas a eliminação da influência da chamada “Teologia da Libertação” no continente latino e africano, chegando a excomungar frades “progressistas” como Leonardo Boff. Mas a chamada ala “progressista’ da Igreja operou ela mesma um profundo retrocesso filosófico, traindo os ideais de religiosos como o de Camilo Torres que chegou a defender a luta armada como uma opção legítima na luta pela libertação do pobres.